sábado, 19 de outubro de 2013

Mega biodiversa, Amazônia tem paisagem homogênea

Igapó ao longo do rio Jaú, no Parque Nacional do Jaú, na região central da Amazônia brasileira (@ Hans ter Steege)
Atualizada às 20h40
A floresta mais biodiversa do mundo apresenta uma paisagem homogênea. É o que descobriu uma força-tarefa que reuniu mais de cem pesquisadores em torno de algumas perguntas aparentemente simples, mas que até então não tinham resposta: Quantas árvores existem na Amazônia? De que espécies? E quais são as mais comuns?
A partir da contagem de indivíduo por indivíduo em 1.170 áreas espalhados por toda a floresta, os cientistas estimaram que nos 6 milhões de km² da bacia ocorrem cerca de 390 bilhões de árvores, de aproximadamente 16 mil diferentes espécies. O número que mais surpreendeu, porém, foi o da última pergunta. Somente 227 espécies respondem por metade de todas as árvores do bioma.
O trabalho, divulgado na edição de hoje da revista americana Science, mostra que o todo da vegetação se segura nesse conjunto muito pequeno de espécies, só 1,4% do total, quantidade menor do que a flora de árvores norte-americana.
“Isso nos surpreendeu. Em qualquer ecossistema, poucas espécies são comuns e muitas são raras. Mas não esperávamos que fosse um número tão pequeno. Imaginávamos que algo entre 5% a 10% das espécies seriam dominantes”, disse ao Estado Hans ter Steege, da Universidade de Utrecht (Holanda), líder do trabalho.
“Mas isso não muda o fato de que a Amazônia é a mais rica área florestal no mundo. Só nos mostra que a distribuição de indivíduos dentro das espécies é um pouco diferente do que imaginávamos”, complementa.
O estudo apontou que entre as mais comuns – ou hiperdominantes, como apelidaram os pesquisadores – estão espécies bastante simbólicas do Brasil, como a castanha do Pará, o cacau, a seringueira. A palmeira do açaí (Euterpe precatoria) é a campeã, com 5,21 bilhões de indivíduos.
Não à toa, são justamente as árvores cultivadas há milênios pelas populações locais e que até hoje tem amplo uso econômico. Esse aproveitamento, sugerem os pesquisadores, pode ser um dos motivos para elas terem se espalhado tanto.
Essa hiperdominância, porém, não ocorre do mesmo modo em toda a Amazônia. Ela se dá de acordo com a afinidade com os cinco tipos florestais que ocorrem dentro do bioma – terra firme, várzea, floresta de areia branca, pântanos e igapó – e com a região. Somente uma das espécies foi observada nas seis regiões estudadas (a Eschweilera coriacea, conhecida popularmente como matamatá) e nenhuma delas ocorre nos cinco tipos de floresta.
A maior parte das espécies, por outro lado, ocorre de modo muito restrito e endêmico. Sendo que mais de um terço das espécies (36%, ou 5.800) são extremamente raras, com populações com menos de mil indivíduos. De acordo com os autores, essa ocorrência tão irrisória é suficiente para dizer que essas espécies estão globalmente ameaçadas. Juntas elas respondem por somente 0,0003% de todas as árvores da Amazônia.
Inventário. Esta é a primeira vez que se consegue fazer um levantamento tão amplo para toda a Amazônia. Outras contagens já tinham sido feitas em escala regional, mas os cientistas nem sequer sabiam quais eram as espécies mais comuns em todo o bioma.
Para fazer o inventário, Steege convocou uma centena de pesquisadores que já trabalhavam na região e criou a Rede de Diversidade de Árvores da Amazônia. Dados que vinham sendo coletados desde 1934 (até 2011) foram aproveitados.
Um dos principais colaboradores foi o botânico brasileiro Rafael Salomão, do Museu Paraense Emílio Goeldi, que contribuiu com mais de 100 parcelas de levantamento florístico. Em linhas gerais, isso consiste em mapear, em áreas de 1 hectare (equivalente a um campo de futebol), quantas árvores com mais de 10 centímetros de diâmetro de tronco estão ali e de quais espécies.
Salomão conta que os seus inventários já davam uma ideia dessa hiperdominância. “Tinha observado que cerca de um terço das espécies apresentavam por parcela apenas um único indivíduo.”
O problema dessa raridade, diz, é que cerca de 5 mil espécies ainda não foram descritas pela ciência – conforme estima a pesquisa – e podem não ser justamente porque é muito difícil achá-las. “E para descrevê-las é preciso que elas tenham flor e fruto, o que realmente precisa de muita sorte”, diz.
As descobertas são importantes para esforços de conservação. “Com nossas estimativas de população podemos identificar quais são as espécies mais vulneráveis, onde elas estão e quanto de sua população já foi perdida”, afirma Steege. Esses dados, por exemplo, podem nortear políticas de criação de áreas protegidas.
Para Salomão, outra importância do trabalho se dá no contexto do Código Florestal, lei que estabelece que propriedades privadas que tenham desmatado ilegalmente precisam recuperar essas áreas com mata nativa.
“É provável que as espécies hiperdominantes favoreçam o desenvolvimento das outras, informação que pode ser útil ao recuperar um passivo ambiental”, diz. “Se o proprietário não tiver muita informação sobre o que havia na área anteriormente, pode usar algumas dessas espécies. Com certeza elas vão ter sucesso na restauração.”

Estações do Conhecimento oferecem palestras gratuitas em cinco temáticas estratégicas para gestão

Estações do Conhecimento oferecem palestras gratuitas em cinco temáticas estratégicas para gestão

Publieditorial, 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Manejo de água no país é crítico, afirmam pesquisadores

Manejo de água no país é crítico, afirmam pesquisadores


09/10/2013
Por Elton Alisson
Agência FAPESP – A gestão de recursos hídricos no Brasil representa um problema crítico, devido à falta de mecanismos, tecnologias e, sobretudo, de recursos humanos suficientes para gerir de forma adequada as bacias hidrográficas do país. A avaliação foi feita por pesquisadores participantes do “Seminário sobre Recursos Hídricos e Agricultura”, realizado no dia 2 de outubro, na FAPESP.
O evento integrou as atividades do 58º Prêmio Fundação Bunge e do 34º Prêmio Fundação Bunge Juventude que, neste ano, contemplaram as áreas de Recursos Hídricos e Agricultura e Crítica Literária. Na área de Recursos Hídricos e Agricultura os prêmios foram outorgados, respectivamente, aos professores Klaus Reichardt, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA), da Universidade de São Paulo (USP), e Samuel Beskow, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
“O Brasil tem problemas de gestão de recursos hídricos porque não há mecanismos, instrumentos, tecnologias e, acima de tudo, recursos humanos suficientemente treinados e com bagagem interdisciplinar para enfrentar e solucionar os problemas de manejo da água”, disse José Galizia Tundisi, pesquisador do Instituto Internacional de Ecologia (IIE), convidado a participar do evento.
“É preciso gerar métodos, conceitos e mecanismos aplicáveis às condições do país”, avaliou o pesquisador, que atualmente dirige o programa mundial de formação de gestores de recursos hídricos da Rede Global de Academias de Ciências (IAP, na sigla em inglês) – instituição que representa mais de cem academias de ciências no mundo.
De acordo com Tundisi, as bacias hidrográficas foram adotadas como unidades prioritárias de gerenciamento do uso da água pela Política Nacional de Recursos Hídricos, sancionada em 1997. Todas as bacias hidrográficas do país, contudo, carecem de instrumentos que possibilitem uma gestão adequada, apontou o pesquisador.
“É muito difícil encontrar um comitê de bacia hidrográfica [colegiado composto por representantes da sociedade civil e responsável pela gestão de recursos hídricos de uma determinada bacia] que esteja totalmente instrumentalizado em termos de técnicas e de programas para melhorar o desempenho do gerenciamento de uso da água”, afirmou.
Modelagem hidrológica
Segundo Tundisi, alguns dos instrumentos que podem facilitar a gestão e a tomada de decisões em relação ao manejo da água de bacias hidrográficas brasileiras são modelos computacionais de simulação do comportamento de bacias hidrográficas, como o desenvolvido por Beskow, professor do Departamento de Engenharia Hídrica da UFPel, ganhador da atual edição do Prêmio Fundação Bunge Juventude na área de Recursos Hídricos e Agricultura.
Batizado de Lavras Simulation of Hidrology (Lash), o modelo hidrológico foi desenvolvido por Beskow durante seu doutorado, realizado na Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, com um período na Purdue University, dos Estados Unidos.
“Há vários modelos hidrológicos desenvolvidos em diferentes partes do mundo – especialmente nos Estados Unidos e Europa –, que são ferramentas valiosíssimas para gestão e tomada de decisões relacionadas a bacias hidrográficas”, disse Beskow.
“Esses modelos hidrológicos são úteis tanto para projetar estruturas hidráulicas – pontes ou reservatórios –, como para fazer previsões em tempo real de cheias e enchentes, como para medir os impactos de ações do tipo desmatamento ou mudanças no uso do solo de áreas no entorno de bacias hidrográficas”, afirmou.
De acordo com o pesquisador, a primeira versão do Lash foi concluída em 2009 e aplicada em pesquisas sobre modelagem de chuva e vazão de água para avaliação do potencial de geração de energia elétrica em bacias hidrográficas de porte pequeno, como a do Ribeirão Jaguará, em Minas Gerais, que possui 32 quilômetros quadrados.
Em razão dos resultados animadores obtidos, o pesquisador começou a desenvolver, a partir de 2011, a segunda versão do modelo de simulação hidrológica, que pretende disponibilizar para os gestores de bacias hidrográficas de diferentes dimensões.
“O modelo conta agora com um banco de dados por meio do qual os usuários conseguem importar e armazenar dados de chuva, temperatura e umidade e uso do solo, entre outros parâmetros, gerados em diferentes estações da rede de monitoramento de uma determinada bacia geográfica e, que permitem realizar a gestão de recursos hídricos”, contou.
Uma das principais motivações para o desenvolvimento de modelos e de simulação hidrológica no Brasil, segundo o pesquisador, é a falta de dados fluviométricos (de medição de níveis de água, velocidade e vazão nos rios) das bacias hidrológicas existentes no país.
É baixo o número de estações fluviométricas cadastradas no Sistema de Informações Hidrológicas (HidroWeb), operado pela Agência Nacional de Águas (ANA), e muitas delas estão fora de operação, afirmou Beskow.
“Existem pouco mais de cem estações fluviométricas no Rio Grande do Sul cadastradas nesse sistema, que nos permitem obter dados de séries temporais de até dez anos”, disse o pesquisador. “Esse número de estações é muito baixo para fazer a gestão de recursos hídricos de um estado como o Rio Grande do Sul.”
Uso racional da água
Beskow e Klaus Reichardt – que também é professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) – destacaram a necessidade de desenvolver tecnologias para usar a água de maneira cada vez mais racional na agricultura, uma vez que o setor consome a maior parte da água doce prontamente disponível no mundo hoje.
Do total de 70% da água encontrada na Terra, 97,5% é salgada e 2,5% é doce. Desse percentual ínfimo de água doce, no entanto, 69% estão estocados em geleiras e neves eternas, 29,8% em aquíferos e 0,9% em reservatórios. Do 0,3% prontamente disponível, 65% são utilizados pela agricultura, 22% pelas indústrias, 7% para consumo humano e 6% são perdidos, ressaltou Reichardt.
“No Brasil, temos a Amazônia e o aquífero Guarani que poderão ser explorados”, afirmou o pesquisador que teve projetos apoiados pela FAPESP.
Reichardt ganhou o prêmio por sua contribuição em Física de Solos ao estudar e desenvolver formas de calcular o movimento de água em solos arenosos ou argilosos, entre outros, que apresentam variações. “Isso foi aplicado em vários tipos de solo com condutividade hidráulica saturada em função da umidade, por exemplo”, contou.
O pesquisador vem se dedicando nos últimos anos a realizar, em colaboração com colegas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), tomografia computadorizada para medida de água no solo. “Por meio dessa técnica conseguimos desvendar fenômenos muito interessantes que ocorrem no solo”, disse Reichardt.
Custo da inanição
O evento contou com a presença de Eduardo Moacyr Krieger e Carlos Henrique de Brito Cruz, respectivamente vice-presidente e diretor científico da FAPESP; Jacques Marcovitch, presidente da Fundação Bunge; Ardaillon Simões, presidente da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe), e José Antônio Frizzone, professor da Esalq, entre outras autoridades.
Em seu pronunciamento, Krieger apontou que a Fundação Bunge e a FAPESP têm muitas características em comum. “Ao premiar anualmente os melhores pesquisadores em determinadas áreas, a Fundação Bunge revela seu cuidado com o mérito científico e a qualidade das pesquisas”, disse Krieger.
“A FAPESP, de certa forma, também faz isso ao ‘premiar’ os pesquisadores por meio de Bolsas, Auxílios e outras modalidades de apoio, levando em conta a qualidade da pesquisa realizada.”
Brito Cruz ressaltou que o prêmio concedido pela Fundação Bunge ajuda a criar no Brasil a possibilidade de pesquisadores se destacarem na sociedade brasileira por sua capacidade e realizações intelectuais.
“Isso é essencial para se construir um país que seja dono de seu destino, capaz de criar seu futuro e enfrentar novos desafios de qualquer natureza”, disse Brito Cruz. “Um país só consegue avançar tendo pessoas com capacidade intelectual para entender os problemas e criar soluções para resolvê-los.”
Por sua vez, Marcovitch avaliou que o problema da gestão do uso da água no país pode ser enfrentado de duas formas. A primeira parte da premissa de que o país está deitado em berço esplêndido, tem recursos naturais abundantes e, portanto, não precisaria se preocupar com o problema. A segunda alerta para as consequências da inação em relação à necessidade de se fazer gestão adequada dos recursos hídricos do país, como Tundisi vem fazendo, para estimular pesquisadores como Beskow e Reichardt a encontrar respostas.
“[Nós, pesquisadores,] temos a responsabilidade de elevar a consciência da sociedade sobre os riscos e o custo da inação em relação à gestão dos recursos hídricos do país”, disse. 

Apesar de proibição, cigarro eletrônico se dissemina em São Paulo

Apesar de proibição, cigarro eletrônico se dissemina em São Paulo

13/10/2013 | 15h04min














Há uma nuvem sobre São Paulo. Ela sai do cigarro eletrônico, engenhoca criada para substituir a queima de tabaco e cuja venda e importação são proibidas no país em razão das incertezas de seus efeitos na saúde. Mesmo assim, já pode ser visto sendo utilizado em restaurantes, bares e baladas da cidade.
"Fumo em todo lugar desde que trouxe de Los Angeles, há um ano", diz a empresária Cristina Nabil, 53, com um modelo da marca americana Blu em punho. "Aprendi lá que não faz mal para quem está perto, então é OK fumar num restaurante."
Não é bem assim. Há poucos estudos realizados. Em um deles, efetuado há seis meses nos Estados Unidos, mostra que o vapor emitido contém substâncias cancerígenas, ainda que em quantidades menores em relação ao cigarro comum (veja quadro na pág. 31).
Seja como for, Nabil diz ter convencido as duas melhores amigas a aderirem à novidade, com a qual nunca passou por problemas. A não ser uma vez, quando funcionários de uma loja de bolsas na rua Oscar Freire, zona oeste, pediram que apagasse a geringonça ou saísse para fumar.
"Respondi que não era apagar, e sim desligar, e que em Paris sempre compro fumando. Não adiantou. Ê, Brasil!" Saiu da loja na promessa de "nunca mais voltar".
O DJ Flavio Romão, 33, ficou quatro meses em lua de mel com o seu modelo, comprado em Nova York. "Optei por causa da saúde. E melhorou: não tive pigarro nem fiquei passando mal por fumar muito."
Retornou ao cigarro de papel faz pouco por não achar no país o líquido com nicotina necessário para a recarga de sua máquina. Romão diz que, no período, fumou em baladas em Pinheiros e no centro. "Usei tranquilo, ninguém me encheu."
Para o empresário Anderson Ribeiro, 35, o "e-fumo" foi um degrau entre o vício e a abstinência. "Comecei a usar e acabei largando o normal." Ele diz que, sem a obrigação de "matar" um cigarro inteiro a cada vez que fumava, diminuiu a quantidade aos poucos.
A coordenadora da área de cardiologia do Programa de Tratamento do Tabagismo do InCor, Jaqueline Scholz Issa, é entusiasta do uso do cigarro eletrônico como uma terapia de redução de danos.
"É um produto para o indivíduo que não consegue parar de fumar ter um cigarro menos tóxico. Mas, por conter nicotina, não é uma forma de tratar a dependência." A médica, no entanto, pondera: "Mesmo com concentrações menores, não é possível avaliar o impacto disso na saúde".
Com a capacidade de levar nicotina ao cérebro de maneira rápida, os eletrônicos funcionam como um cigarro comum. Porém, sem a combustão do tabaco e substâncias químicas, como o alcatrão.
A falta de certezas produz situações delicadas. Quando ainda fumava o eletrônico, Anderson Ribeiro foi repreendido em alguns lugares. "Tem gente que fica ofendidíssima. É como se eu estivesse violando o espaço que os não-fumantes conquistaram", diz ele.
"Agora, entro no shopping fumando Blu e ninguém pode falar nada. Parece uma caneta e [os seguranças] não sacaram", conta a artista plástica Patricia Mariani, 56. Ela ganhou o eletrônico da filha neste mês. E o objetivo, ressalta, é reduzir o consumo do cigarro tradicional.
ILEGAL
"Para consumo em ambiente fechado, [o eletrônico] tem de ser entendido como cigarro [comum]", ressalta André Luiz Oliveira, da Gerência Geral de Produtos Derivados de Tabaco da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Ou seja, o eletrônico se insere na lei federal que não permite fumar em aeronaves e veículos de transporte coletivo desde 1996. O mesmo aplica-se à lei antifumo paulista, que barrou a partir de 2009 o consumo em ambientes coletivos no Estado.
No mesmo ano, a Anvisa proibiu a venda e importação no país, por falta de comprovação científica da sua qualidade e dos possíveis efeitos na saúde. "Ninguém sabe do que se trata", diz Oliveira. "Há casos nos EUA de explosão de cigarro eletrônico."
Dois anos atrás, a Anvisa identificou que o Paraguai é um dos pontos de origem dos produtos. Aqui, não é difícil encontrá-los. Para esta reportagem, a sãopaulo comprou um, de modelo simples, em uma lojinha na 25 de março por R$ 12,50, e outro, muito mais avançado, de R$ 400, por meio de um site.
Já quem tenta comprá-lo pela internet de vendedores no exterior costuma perder o produto: as máquinas de raio-X existentes nos Correios o identificam. Registram-se em média dois flagrantes por dia. A Receita Federal retém a encomenda e a devolve ao país de origem.
A chance de punição para o consumidor, por sua vez, é remota. "Se analisarmos friamente a lei, é contrabando", diz Humberto Fabretti, professor de direito do Mackenzie. "Mas não acredito que se faça algo por conta de um cigarro. É mais ou menos a lógica aplicada ao CD pirata."
VITRINE
Nessa batalha, a novidade tecnológica tem conquistado adeptos entre os famosos. Neste ano, a modelo inglesa Kate Moss fumou um no Baretto, bar do hotel Fasano, no Jardim Paulista, zona oeste. Ronaldo e sua ex-mulher Bia Anthony também foram fotografados usando.
O colunista social Amaury Jr, 62, engrossa os adeptos. Enquanto conversa com a reportagem em sua produtora, no Jardim Europa, saca um modelo descartável da Blu.
Ainda que tenha no estojo variedades de aroma como champanhe e baunilha, opta no dia a dia pelo sabor que imita Marlboro Light (em Los Angeles, é possível utilizar até óleo de haxixe).
A descoberta do cigarro eletrônico, anos atrás, o animou. Muito. "Eu até pensei em entrar nesse mercado." Mas depois veio a descobrir que o produto estava vetado. E usou seu ofício para descobrir o porquê do interdito.
"Trouxe um cara da Anvisa para me dar entrevista [no programa de TV]. Queria saber por que está proibido. É porque tem nicotina? Chicletes [com nicotina] e 'patches' [adesivos] estão por todo lugar."
Para ele, é só questão de tempo para que a proibição caia, e brasileiros se acostumem ao "e-fumo" em lugares públicos. "Até em avião eu fumo!" Questionadas, as companhias aéreas Gol e TAM não responderam se já flagraram passageiros e que procedimento adotam nesse caso.
UMA NOITE NA CIDADE
A pedido da sãopaulo, a redatora publicitária Carla Regina Cortegoso, 27, levou seu cigarro virtual para uma noitada composta por: abertura de mostra de arte, jantar em shopping, um bar, um café, um restaurante e uma balada.
Após dar cabo de um fast-food na praça de alimentação de um shopping na Bela Vista, região central, ela tirou a geringonça da bolsa e a levou à boca.
Em três minutos, uma segurança se chegou à mesa. "Senhora, aqui não se pode fumar." Carla explicou, batendo a maquininha na mesa de pedra, que não era um cigarro de verdade. A funcionária partiu.
Um pai de família na mesa atrás dela, para onde ia o vapor, começou a chamar mais seguranças. Imitava um cigarro com uma mão e pedia atenção estalando os dedos da outra. Em vão. Depois de minutos pedindo atenção, pegou o celular e começou a filmar a cena, que chamou de "inacreditável".
"Eu ia mandar para a Polícia Federal se vocês não avisassem que era reportagem", disse ele.
Na abertura de uma exposição fotográfica, no Itaim Bibi, zona oeste, um casal comentava: "Aquela menina está fumando?". Sim, ela estava. Garçons pareceram notar a cena. A fumante ouviu cinco vezes frases como "a senhora quer vinho?", como se dissessem que repararam o uso do cigarro. Nenhuma interpelação direta, contudo, foi feita.
"Parece ser uma relação meio de mãe de drogado, que vê o que está acontecendo mas prefere não lidar com o problema", compara a publicitária.
Os frequentadores da mesa ao lado do café, perto da Paulista, pediram a conta assim que as baforadas começaram. O garçom do bar na Vila Madalena, zona oeste, ficou em dúvida se ela poderia, consultou o gerente e voltou oferecendo uma mesa na calçada. No restaurante, atraiu olhares espantados da freguesia. Já na balada da rua Augusta, passou completamente batido.
*
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. Onde comprar?
É proibida a venda no Brasil desde 2009. Porém, diferentes modelos são oferecidos em sites e em lojas da rua 25 de Março
2. É proibido fumar?
Não. O produto contém nicotina, extrato da planta tabaco, cujo consumo é permitido
3. Posso fumar em restaurantes?
Não. A lei paulista, de 2009, veta o consumo de "produto fumígeno" em ambientes de uso coletivo
4. Posso trazer do exterior?
Não. E quem tentar, pode ser acusado de contrabando. Entretanto, até hoje não há registro de apreensões no aeroporto de Guarulhos
5. Faz mal?
Sim. Esses cigarros têm nicotina, droga que causa dependência, além de substâncias cancerígenas
*
Fontes: Anvisa, Receita, PF, Secretaria da Saúde e Humberto Fabretti, prof. de direito do Mackenzie
Folha de São Paulo 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Filme científico feito no Brasil mostra 'paixão' e perigo dos raios

10/10/2013 07h00 - Atualizado em 10/10/2013 15h00

Filme científico feito no Brasil mostra 'paixão' e perigo dos raios

'Fragmentos de paixão' será exibido nos cinemas a partir desta sexta (11).
Documentário apresenta relatos de brasileiros impactados por raios.


Eduardo CarvalhoDo G1, em São Paulo
Raio corta o céu de Campinas, no interior de São Paulo, durante tempestade noturna (Foto: Jácomo Jackdimmit Piccolini/Elat-INPE )Raio corta o céu de Campinas, no interior de São Paulo, durante tempestade (Foto: Jácomo Jackdimmit Piccolini/Elat-INPE )
Um levantamento feito por pesquisadores brasileiros do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) mostrando que 80% das mortes causadas por raios no país poderiam ter sido evitadas foi o principal mote para a produção do filme “Fragmentos de paixão”. O longa estreia nesta sexta-feira (11) nas salas da Rede Cinemark de São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Porto Alegre e São José dos Campos, no interior paulista.
  • Você sabia que:
- O período que vai de outubro até março é considerado a temporada de raios no Brasil?
- Norte, Sul e Centro-Oeste deverão receber mais descargas elétricas na primavera; e Nordeste e Sudeste serão mais impactados no verão?
A falta de informação sobre como se proteger das descargas elétricas chamou a atenção do pesquisador Osmar Pinto Junior, coordenador do Elat, ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe.
Segundo ele, o percentual é alto e preocupante. "Se é por falta de informação [que as mortes acontecem], nós temos que agir", disse o cientista.
O estudo em questão mostrava que na década passada, dos 1.332 óbitos causados por raios no país, 80% ocorreram com pessoas que estavam em um campo aberto durante uma tempestade elétrica, se esconderam debaixo de árvores ou faziam atividades como dirigir tratores ou andar com enxadas em lugares desprotegidos.
Dirigido por Iara Cardoso, jornalista e filha do pesquisador, o documentário traça um paralelo entre as descargas elétricas e a história do Brasil, país que está em primeiro lugar na lista de ‘alvos’ de raios em todo o mundo por registrar anualmente 57,8 milhões de raios, segundo o Elat. São 14,8 milhões a mais que o segundo lugar no ranking, a República Democrática do Congo, que recebe 43 milhões de descargas ao ano.
Segundo Osmar, a explicação para o “título mundial” é simples: "somos o país com maior extensão tropical do planeta", região considerada a mais quente da Terra e, consequentemente, a que mais forma tempestades ao longo do ano.
Vidas afetadas
O filme mostra histórias verídicas, atuais e que ocorreram há muitos anos, de seis brasileiros impactados de alguma forma pelos raios.
O título faz menção à paixão do cientista pelos raios e às seis vidas relatadas, no caso, os fragmentos.
Desde um pajé que vive em uma aldeia em Ubatuba (SP), e considera as luzes como um tipo de proteção -- e não ameaça (veja vídeo ao lado), ao relato de um funcionário aposentado do Inpe que, ao voltar do trabalho de bicicleta em um dia chuvoso, foi atingido por uma descarga e socorrido por uma mulher. Anos depois, ela se casou com ele.
“A ideia do filme é mostrar os perigos dos raios e levar informações para o público de forma atraente, com uma linguagem mais simples possível para que a pessoa possa entender o que acontece”, explica Osmar.

Foco na divulgação científica
Segundo Iara Cardoso, após sua exibição na telona, “Fragmentos” deve ser divulgado na televisão brasileira e do exterior. Segundo ela, já há uma versão do filme traduzida para o inglês. “Já inscrevemos o filme em alguns festivais e há um interesse pelo assunto lá fora, já que nunca houve um documentário sobre raios feito no Brasil. Havia interesse, mas não tempo de trabalhar em um material, já que demoraria anos para capturar as imagens dos raios”, explica.
Ela comenta ainda que o fato de exibir o filme em salas comerciais de cinema, abrindo portas para um novo tipo de divulgação científica no país, é um impulso para a pesquisa brasileira.

“Estamos abrindo caminho. As pessoas falam que ninguém quer saber de história e ciência, mas eu não acredito nisso. A ciência parece distante, mas não é. [O filme] deve abrir portas para resgatar a história do país e, no caso da ciência, para que as pessoas conheçam mais a respeito”, explica.
Perigo que vem do céu
Levantamento feito pelo Elat, a partir de dados da Defesa Civil, do Ministério da Saúde e reportagens veículadas em jornais aponta que 2.640 pessoas de todo o país morreram atingidas por descargas entre 1991 e 2010.
No mesmo período, segundo o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais, divulgado em 2012 pelo Centro universitário de estudos e pesquisas sobre desastres (Ceped), ligado à Universidade Federal de Santa Catarina, morreram 2.475 brasileiros vítimas de enchentes de deslizamentos de terra.
Os números de mortes por raios podem aumentar no futuro caso se eleve a incidência de raios no país, possibilidade que pode acontecer devido à urbanização e aos efeitos da mudança climática, provocada pelo aumento da temperatura global.
Raio é uma descarga elétrica de grande intensidade que ocorre na atmosfera. A intensidade típica de um raio é de 30 mil ampères, cerca de mil vezes a intensidade de um chuveiro elétrico. Por ano, morrem 130 pessoas vítimas de raios no Brasil, segundo dados do Elat
De acordo com Osmar, cidades médias (500 mil habitantes) e grandes metrópoles poderão se tornar alvos frequentes de raios devido às ilhas de calor, fenômeno responsável pela sensação de abafamento e resultante do processo de adensamento urbano e impermeabilização do solo.
Materiais como asfalto, concreto armado, cimento e o excesso de prédios dificultam a circulação do ar, o que faz com que o calor se concentre em determinados pontos.
Além disso, existe a hipótese de que cada grau a mais de aquecimento da temperatura média global resulte em alta de 10% a 20% na incidência de raios. Quanto maior o calor, maior é a formação de chuvas na região dos trópicos. “Ainda não se consegue perceber um aumento dos raios em função da temperatura. Isso vai se manifestar aos poucos, nas próximas décadas”, explica.
Ainda segundo o Elat, o período que vai de outubro até março é considerado temporada de raios no Brasil, devido ao aumento de tempestades. De acordo com o grupo de pesquisas, Norte, Sul e Centro-Oeste deverão receber a maior quantidade de descargas durante a primavera, enquanto o Nordeste e o Sudeste serão mais impactados no verão.

Biogasolina é produzida por bactérias pela primeira vez

Biogasolina é produzida por bactérias pela primeira vez

Redação do Site Inovação Tecnológica - 07/10/2013

SITE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA. Biogasolina é produzida por bactérias pela primeira vez. 07/10/2013. Online. Disponível em www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=biogasolina. Capturado em 12/10/2013. 
Biogasolina é produzida por bactérias pela primeira vez
Diagrama mostra a cadeia para a produção de alcanos de cadeia curta (biogasolina) a partir de biomassa renovável.[Imagem: KAIST]
Gasolina sustentável
Yong Choi e Sang Lee, do Instituto KAIST, da Coreia do Sul, conseguiram um feito inédito no campo dos biocombustíveis.
Eles produziram 580 mg de biogasolina por litro de cultura microbiana in vivo.
A gasolina tradicional, derivada do petróleo, é uma mistura de hidrocarbonos, aditivos e agentes misturadores.
Os hidrocarbonos, chamados alcanos, são formados apenas por átomos de carbono e hidrogênio, dispostos em moléculas de diversas configurações, que podem ter entre 4 e 12 átomos de carbono.
Outros pesquisadores já haviam usado bactérias geneticamente modificadas para desenvolver rotas metabólicas para a produção de alcanos de cadeias longas - entre 13 e 17 átomos de carbono - que são adequados para substituir o diesel.
Agora, pela primeira vez, os dois pesquisadores conseguiram usar bactérias E. coli para produzir alcanos de cadeias mais curtas - essencialmente uma biogasolina.
Segundo eles, seu processo pode ser modificado para produzir outros produtos, como ésteres e álcoois.
"É apenas o começo do trabalho em direção à produção sustentável de gasolina," disse o professor Sang Yup, destacando que agora o trabalho se concentrará no aumento do rendimento do processo.
Bibliografia:

Microbial Production of Short-chain Alkanes
Yong Jun Choi, Sang Yup Lee
Nature
Vol.: Published online
DOI: 10.1038/nature12536

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Países assinam convenção para controlar o uso de mercúrio

10/10/2013 08h12 - Atualizado em 10/10/2013 08h12

Países assinam convenção para controlar o uso de mercúrio

Objetivo de acordo é reduzir emissões de mercúrio, tóxicas para a saúde.
Mercúrio pode trazer problemas psicológicos, digestivos e respiratórios.

Da AFP
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 Ministro do Meio Ambiente do Japão Nobuteru Ishihara (dir.) e Achim Steiner (esq.), diretor executivo do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (Unep) depositam flores no monumento pelas centenas de vítimas de envenenamento por mercúrio na cidade de Minamata; local sediou pior episódio de intoxicação industrial do país. (Foto: AFP Photo/Jiji Press)Ministro do Meio Ambiente do Japão Nobuteru Ishihara (dir.) e Achim Steiner (esq.), diretor executivo do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (Unep) depositam flores no monumento pelas centenas de vítimas de envenenamento por mercúrio na cidade de Minamata; local sediou pior episódio de intoxicação industrial do país. (Foto: AFP Photo/Jiji Press)
Os representantes de quase 140 países assinaram nesta quinta-feira (10) no Japão a "Convenção Minamata" sobre o uso e as emissões de mercúrio, que leva o nome da cidade japonesa que sofreu o mais grave envenenamento por este metal altamente tóxico.
A Convenção Minamata foi assinada em uma reunião organizada pela ONU em Kumamoto, perto de Minamata, depois de ter sido elaborada e adotada em janeiro em Genebra.
O objetivo do acordo é reduzir a nível mundial as emissões de mercúrio, muito tóxicas para a saúde e o meio ambiente, assim como a produção e o uso do mercúrio, em especial durante a fabricação de produtos e nos processos industriais.
Uma vez ratificado por 50 Estados, o tratado entrará em vigor, o que poderia levar de três a quatro anos.b'Precisamos que muitos países em desenvolvimento ratifiquem o tratado para que entre em vigor o mais rápido possível', declarou o ministro do Meio Ambiente japonês, Nobuteru Ishihara.
O mercúrio é um metal pesado muito tóxico para os seres vivos. Uma exposição intensa ao mercúrio prejudica o sistema imunológico e pode provocar problemas psicológicos e digestivos, assim como a perda de dentes, problemas cardiovasculares ou respiratórios.
A convenção prevê sobretudo que até 2020 os produtos que utilizam mercúrio, como os termômetros, desapareçam do mercado e em um prazo de 15 anos o fim do uso na mineração.
Mas os grupos de defesa do meio ambiente temem que a convenção não consiga deter o uso do mercúrio nas pequenas minas de ouro artesanais.
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), nos últimos 100 anos, a quantidade de mercúrio presente nos 100 primeiros metros de profundidade dos oceanos, procedente de emissões relacionadas com a atividade humana, dobrou e em águas profundas aumentou 25%.