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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Força-tarefa internacional fará diagnóstico sobre polinização no mundo

Força-tarefa internacional fará diagnóstico sobre polinização no mundo


23 de setembro de 2014

Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Um grupo de 75 pesquisadores de diversos países-membros da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês), que reúne 119 nações de todas as regiões do mundo, fará uma avaliação global sobre polinizadores, polinização e produção de alimentos.
O escopo do projeto foi apresentado na última quarta-feira (17/09) em São Paulo, no auditório da FAPESP, em um encontro de integrantes do organismo intergovernamental independente, voltado a organizar o conhecimento sobre a biodiversidade no mundo e os serviços ecossistêmicos.
“A ideia do trabalho é avaliar todo o conhecimento existente sobre polinização no mundo e identificar estudos necessários na área para auxiliar os tomadores de decisão dos países a formular políticas públicas para a preservação desse e de outros serviços ecossistêmicos prestados pelos animais polinizadores”, disse Vera Imperatriz Fonseca, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITVDS), à Agência FAPESP.
“Já estamos conhecendo melhor o problema [da crise da polinização no mundo]. Agora, precisamos identificar soluções”, disse a pesquisadora, que coordena a avaliação ao lado de Simon Potts, professor da University of Reading, do Reino Unido.
De acordo com Fonseca, há mais de 100 mil espécies de animais invertebrados polinizadores no mundo, dos quais 20 mil são abelhas. Além de insetos polinizadores – que serão o foco do relatório –, há também cerca de 1,2 mil espécies de animais vertebrados, tais como pássaros, morcegos e outros mamíferos, além de répteis, que atuam como polinizadores.
Estima-se que 75% dos cultivos mundiais e entre 78% e 94% das flores silvestres do planeta dependam da polinização por animais, apontou a pesquisadora.
“Há cerca de 300 mil espécies de flores silvestres que dependem da polinização por insetos”, disse Fonseca. “O valor anual estimado desse serviço ecossistêmico prestado por insetos na agricultura é de US$ 361 bilhões. Mas, para a manutenção da biodiversidade, é incalculável”, afirmou.
Nos últimos anos registrou-se uma perda de espécies nativas de insetos polinizadores no mundo, causada por, entre outros fatores, desmatamento de áreas naturais próximas às lavouras, uso de pesticidas e surgimento de patógenos.
Se o declínio de espécies de insetos polinizadores se tornar tendência, pode colocar em risco a produtividade agrícola e, consequentemente, a segurança alimentar nas próximas décadas, disse a pesquisadora.
“A população mundial aumentará muito até 2050 e será preciso produzir uma grande quantidade de alimentos com maior rendimento agrícola, em um cenário agravado pelas mudanças climáticas. A polinização por insetos pode contribuir para solucionar esse problema”, afirmou Fonseca.
Segundo um estudo internacional, publicado na revista Current Biology, estima-se que o manejo de colmeias de abelhas utilizadas pelos agricultores para polinização – como as abelhas domésticas Apis mellifera L, amplamente criadas no mundo todo – tenha aumentado em cerca de 45% entre 1950 e 2000.
As áreas agrícolas dependentes de polinização, no entanto, também cresceram em mais de 300% no mesmo período, apontam os autores da pesquisa.
“Apesar de ter aumentado o manejo de espécies de abelhas polinizadoras, precisamos muito mais do que o que temos no momento para atender às necessidades da agricultura”, avaliou Fonseca.
O declínio das espécies de polinizadores no mundo estimula a polinização manual em muitos países. Na China, por exemplo, é comum o comércio de pólen para essa finalidade, afirmou a pesquisadora.
“Na ausência de animais para fazer a polinização, tem sido feita a polinização manual de lavouras de culturas importantes, como o dendê e a maçã. No Brasil se faz a polinização manual de maracujá , tomate e de outras culturas”, disse. 
Falta de dados
Segundo Fonseca, já há dados sobre o declínio de espécies de abelhas, moscas-das-flores (sirfídeos) e de borboletas na Europa, nos Estados Unidos, no Oriente Médio e no Japão.
Um estudo internacional, publicado no Journal of Apicultural Research, apontou perdas de aproximadamente 30% de colônias de Apis mellifera L em decorrência da infestação pelo ácaro Varroa destructor, que diminui a vida das abelhas e, consequentemente, sua atividade de polinização nas flores, em especial nos países do hemisfério Norte.
Na Europa, as perdas de colônias de abelhas em decorrência do ácaro podem chegar a 53% e, no Oriente Médio, a 85%, indicam os autores do estudo. No entanto, ainda não há estimativas sobre a perda de colônias e de espécies em continentes como a América do Sul, África e Oceania.
“Não temos dados sobre esses continentes. Precisamos de informações objetivas para preenchermos uma base de dados sobre polinização em nível mundial a fim de definir estratégias de conservação em cada país”, avaliou Fonseca. “Também é preciso avaliar os efeitos de pesticidas no desaparecimento das abelhas em áreas agrícolas, que têm sido objeto de estudos e atuação dos órgãos regulatórios no Brasil.”
Outra grande lacuna a ser preenchida é a de estudos sobre interações entre espécies de abelhas polinizadoras nativas com as espécies criadas para polinização, como as Apis mellifera L.
Um estudo internacional publicado em 2013 indicou que, quando as Apis mellifera L e as abelhas solitárias atuam em uma mesma cultura, a taxa de polinização aumenta significativamente, pois elas se evitam nas flores e mudam mais frequentemente de local de coleta de alimento, explicou Fonseca.
De acordo com a pesquisadora, uma solução para a polinização em áreas agrícolas extensas tem sido o uso de colônias de polinizadores provenientes da produção de colônias em massa, como de abelhas Bombus terrestris, criadas em larga escala e inclusive exportadas.
Em 2004, foi produzido 1 milhão de colônias dessa abelha para uso na agricultura.
Na América do Sul, o Chile foi o primeiro país a introduzir essas abelhas para polinização de frutas e verduras. Em algumas áreas onde foi introduzida, entretanto, essa espécie exótica de abelha mostrou ser invasora e ter grande capacidade de ocupar novos territórios.
“É preciso estudar mais a interação entre as espécies para identificar onde elas convivem, qual a contribuição de cada uma delas na polinização e se essa interação é positiva ou negativa”, indicou Fonseca.
“Além disso, a propagação de doenças para as espécies nativas de abelhas causa preocupação e deve ser um foco da pesquisa nos próximos anos”, indicou.
Problema global
De acordo com Fonseca, a avaliação intitulada Polinizadores, polinização e produção de alimentos, do IPBES, está em fase de redação e deverá ser concluída no fim de 2015.
Além de um relatório técnico, com seis capítulos de 30 páginas cada, a avaliação também deverá apresentar um texto destinado aos formuladores de políticas públicas sobre o tema, contou.
“A avaliação sobre polinização deverá contribuir para aumentar os esforços de combate ao problema do desaparecimento de espécies de polinizadores no mundo, que é urgente e tem uma relevância política e econômica muito grande, porque afeta a produção de alimentos”, afirmou.
A avaliação será o primeiro diagnóstico temático realizado pelo IPBES e deverá ser disponibilizada para o público em geral em dezembro de 2015. O painel planeja produzir nos próximos anos outros levantamentos semelhantes sobre outros temas como espécies invasoras, restauração de habitats e cenários de biodiversidade no futuro.
Uma estratégia adotada para tornar os diagnósticos temáticos mais integrados foi a criação de forças-tarefa – voltadas à promoção da capacitação profissional e institucional, ao aprimoramento do processo de gerenciamento de dados e informações científicas e à integração do conhecimento tradicional indígena e das pesquisas locais aos processos científicos –, que deverão auxiliar na produção do texto final.
“O IPBES trabalha em parceria com a FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura], Unep [Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente], CBD [Convention on Biological Diversity], Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura] e todos os esforços anteriores que trataram do tema de polinização”, afirmou Fonseca.
A polinização foi o primeiro tópico a ser escolhido pelos países-membros da plataforma intergovernamental, entre outras razões, por ser um problema global e já existir um grande número de estudos sobre o assunto, contou Carlos Joly, coordenador do Programa FAPESP de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA-FAPESP) e membro do Painel Multidisciplinar de Especialistas do IPBES.
“Como já há um arcabouço muito grande de dados sobre esse tema, achamos que seria possível elaborar rapidamente uma síntese. Além disso, o tema tem um impacto global muito grande, principalmente por estar associado à produção de alimentos”, avaliou Joly.
Os 75 pesquisadores participantes do projeto foram indicados pelo Painel Multidisciplinar de Especialistas do IPBES, que se baseou nas indicações recebidas dos países-membros e observadores da plataforma intergovernamental.
Dois do grupo são escolhidos para coordenar o trabalho, sendo um de um país desenvolvido e outro de uma nação em desenvolvimento.
“O convite e a seleção da professora Vera Imperatriz Fonseca como coordenadora da avaliação é reflexo da qualidade da ciência desenvolvida nessa área no Brasil e da experiência dela em trabalhar com diagnósticos nacionais”, avaliou Joly. “Gostaríamos de ter mais pesquisadores brasileiros envolvidos na elaboração dos diagnósticos do IPBES.”
 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

The Magical Forest





Publicado em 03/05/2013
BBC Documentary 2012 - The Magical Forest

Secrets of Our Living Planet showcases the incredible ecosystems that make life on Earth possible. Using beautifully shot scenes in the wild, Chris Packham reveals the hidden wonder of the creatures that we share the planet with, and the intricate, clever and bizarre connections between the species, without which life just could not survive.

Discover previously unknown relationships, like why a tiger needs a crab, or why a gecko needs a giraffe. Each week Chris visits one of our planet's most vital and spectacular habitats and dissects it to reveal the secrets of how our living planet works.

domingo, 10 de novembro de 2013

Insectopia


Ecodesign 21/06/2013 09:22



O endereço dos insetos nas cidades? Insectopia



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Projeto Insectopia, do estúdio francês Vaulout %26 Dyèvre


São Paulo - Preocupados com a falta de espaço para a fauna e flora nos centros urbanos,designers do estúdio francês Vaulout & Dyèvre bolaram uma solução no mínimo curiosa: o “Insectopia”, um habitat artificial, mas acolhedor, para insetos.
Formado por micro casas de madeira sobrepostas umas as outras, que servem de abrigo para os bichos, o projeto foi instalado em um parque de Paris para promover abiodiversidade nas zonas urbanas.

“Esperamos que esse objeto provoque uma emoção”, dizem os designers em site oficieal. “Ele vem para trabalhar a imaginação dos transeuntes, para despertar a curiosidade por um universo espetacular e marcante, porém quase invisível, que é a vida dos insetos”, acrescentam.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

E-book gratuito sobre Pagamento por Serviços Ambientais é lançado

E-book gratuito sobre Pagamento por Serviços Ambientais é lançado

31/10/2013     -   Fonte: Instituto CarbonoBrasil/Planeta Verde

Publicação traz artigos sobre os desafios que ainda cercam as iniciativas de remuneração de proprietários de terras que de alguma forma garantam a preservação da biodiversidade e dos benefícios que a natureza nos proporciona



http://www.institutocarbonobrasil.org.br/arquivos_web/documentos/DIREITO%20e%20%20%20%20%20%20MUDANcAS%20CLIMATICAS%206.pdf

Existem muitas dúvidas sobre os chamados Pagamentos por Seviços Ambientais (PSA), mecanismo que tem tudo para ser bastante relevante em um país rico em biodiversidade e tão dependente de sua agricultura como o Brasil.

Para ajudar a esclarecer algumas dessas questões, foi publicado nesta semana o e-book "Sistemas estaduais de PSA: diagnóstico, lições aprendidas e desafios para a futura legislação".
Contendo quatro artigos acadêmicos, a publicação aborda a questão do Direito Ambiental, mudanças climáticas e PSA sob diversos aspectos. O e-book faz parte da série de livros eletrônicos sobre direito e mudanças climáticas que o Instituto O Direito por Um Planeta Verde vem publicando desde 2010. 
 O artigo de destaque da publicação é o da professora da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Planeta Verde, Ana Maria de Oliveira Nusdeo. No texto "Pagamento por serviços ambientais: do debate de política ambiental à implementação jurídica", a autora discute os desafios do PSA com o objetivo de ajudar a solucionar certos impasses que ainda existem no âmbito jurídico.
 Para ela, uma das grandes questões dos esquemas de PSA é a da equidade social. Ana reflete sobre a necessidade de se inserir os pequenos grupos aos sistemas de PSA, assim como o desafio de se pensar qual o tipo de participação que os grandes proprietários de terra terão nesses esquemas.  Uma possível solução apontada pela professora é a de se estabelecer requisitos prioritários de aderência aos grupos mais fracos, enquanto limites máximos de pagamento por propriedade.
 PSA e Mudanças Climáticas
 O artigo "Os Sistemas de pagamento por serviços ambientais como ferramenta de gestão dos riscos decorrentes das mudanças do clima" também compõe o e-book e é do autor é Guillermo Tejeiro, coordenador técnico do Projeto.
 No texto, ele faz um apanhado teórico das publicações sobre biodiversidade, serviços ambientais e mudanças climáticas dos órgãos internacionais da área ambiental. O mestre em Direito Ambiental evidência a relação existente entre a preservação dos ecossistemas e a mitigação e adaptação ao aquecimento global.
 O Pagamento por Serviços Ambientais, segundo o autor, pode ser uma ferramenta eficaz na gestão de riscos das mudanças climáticas. "As iniciativas de PSA demonstram o seu potencial como ferramenta de mitigação e de adaptação às mudanças do clima, posto que promovem a gestão sustentável dos ecossistemas e, consequentemente, dos serviços ecossistêmicos relacionados com a mitigação e a adaptação deste fenômeno", aponta.

 Direito e serviços ecossistêmicos
 Márcia Stanton faz considerações sobre a função do direito na promoção dos serviços ecossistêmicos, no artigo "O papel do direito na proteção dos serviços ecossistêmicos". A autora discute como o direito pode proporcionar incentivos positivos a comportamentos adequados à sociedade, como a preservação ambiental, indo além dos mecanismos de comando e controle, que promovem punições a comportamentos inadequados.
 A advogada aborda alguns aspectos principais do PSA, como a condicionalidade e voluntariedade. Além disso, reflete sobre o papel do direito como normatizador de políticas públicas. "O PSA apresenta grande potencial para induzir comportamentos e exercer uma função persuasiva e premonitiva", coloca. Para ela, é fundamental estudos sobre as normativas de PSA já em vigor no país a fim de se instituir leis que rejam uma política nacional sobre o tema.

 PSA na Costa Rica
 O professor de Direito Ambiental da Faculdade de Direito da Universidade da Costa Rica, Mario Peña Chacón, traz para a publicação um detalhamento sobre como funciona o sistema nacional de Pagamento por Serviços Ambientais em seu país, que comporta uma grande biodiversidade. Chacón também aborda essa questão relacionada ao aquecimento global e aos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL).
 Para o autor, o PSA na Costa Rica se efetivou como um mecanismo de sucesso no país, desde sua criação na década de 90. "El marco jurídico y económico del programa de pago de servicios ambientales, debe de servir a la comunidad internacional como un claro ejemplo, de la factibilidad y sustentabilidad de esta clase de proyectos, los cuales crean beneficios no solo a la sociedad", coloca.

sábado, 19 de outubro de 2013

Mega biodiversa, Amazônia tem paisagem homogênea

Igapó ao longo do rio Jaú, no Parque Nacional do Jaú, na região central da Amazônia brasileira (@ Hans ter Steege)
Atualizada às 20h40
A floresta mais biodiversa do mundo apresenta uma paisagem homogênea. É o que descobriu uma força-tarefa que reuniu mais de cem pesquisadores em torno de algumas perguntas aparentemente simples, mas que até então não tinham resposta: Quantas árvores existem na Amazônia? De que espécies? E quais são as mais comuns?
A partir da contagem de indivíduo por indivíduo em 1.170 áreas espalhados por toda a floresta, os cientistas estimaram que nos 6 milhões de km² da bacia ocorrem cerca de 390 bilhões de árvores, de aproximadamente 16 mil diferentes espécies. O número que mais surpreendeu, porém, foi o da última pergunta. Somente 227 espécies respondem por metade de todas as árvores do bioma.
O trabalho, divulgado na edição de hoje da revista americana Science, mostra que o todo da vegetação se segura nesse conjunto muito pequeno de espécies, só 1,4% do total, quantidade menor do que a flora de árvores norte-americana.
“Isso nos surpreendeu. Em qualquer ecossistema, poucas espécies são comuns e muitas são raras. Mas não esperávamos que fosse um número tão pequeno. Imaginávamos que algo entre 5% a 10% das espécies seriam dominantes”, disse ao Estado Hans ter Steege, da Universidade de Utrecht (Holanda), líder do trabalho.
“Mas isso não muda o fato de que a Amazônia é a mais rica área florestal no mundo. Só nos mostra que a distribuição de indivíduos dentro das espécies é um pouco diferente do que imaginávamos”, complementa.
O estudo apontou que entre as mais comuns – ou hiperdominantes, como apelidaram os pesquisadores – estão espécies bastante simbólicas do Brasil, como a castanha do Pará, o cacau, a seringueira. A palmeira do açaí (Euterpe precatoria) é a campeã, com 5,21 bilhões de indivíduos.
Não à toa, são justamente as árvores cultivadas há milênios pelas populações locais e que até hoje tem amplo uso econômico. Esse aproveitamento, sugerem os pesquisadores, pode ser um dos motivos para elas terem se espalhado tanto.
Essa hiperdominância, porém, não ocorre do mesmo modo em toda a Amazônia. Ela se dá de acordo com a afinidade com os cinco tipos florestais que ocorrem dentro do bioma – terra firme, várzea, floresta de areia branca, pântanos e igapó – e com a região. Somente uma das espécies foi observada nas seis regiões estudadas (a Eschweilera coriacea, conhecida popularmente como matamatá) e nenhuma delas ocorre nos cinco tipos de floresta.
A maior parte das espécies, por outro lado, ocorre de modo muito restrito e endêmico. Sendo que mais de um terço das espécies (36%, ou 5.800) são extremamente raras, com populações com menos de mil indivíduos. De acordo com os autores, essa ocorrência tão irrisória é suficiente para dizer que essas espécies estão globalmente ameaçadas. Juntas elas respondem por somente 0,0003% de todas as árvores da Amazônia.
Inventário. Esta é a primeira vez que se consegue fazer um levantamento tão amplo para toda a Amazônia. Outras contagens já tinham sido feitas em escala regional, mas os cientistas nem sequer sabiam quais eram as espécies mais comuns em todo o bioma.
Para fazer o inventário, Steege convocou uma centena de pesquisadores que já trabalhavam na região e criou a Rede de Diversidade de Árvores da Amazônia. Dados que vinham sendo coletados desde 1934 (até 2011) foram aproveitados.
Um dos principais colaboradores foi o botânico brasileiro Rafael Salomão, do Museu Paraense Emílio Goeldi, que contribuiu com mais de 100 parcelas de levantamento florístico. Em linhas gerais, isso consiste em mapear, em áreas de 1 hectare (equivalente a um campo de futebol), quantas árvores com mais de 10 centímetros de diâmetro de tronco estão ali e de quais espécies.
Salomão conta que os seus inventários já davam uma ideia dessa hiperdominância. “Tinha observado que cerca de um terço das espécies apresentavam por parcela apenas um único indivíduo.”
O problema dessa raridade, diz, é que cerca de 5 mil espécies ainda não foram descritas pela ciência – conforme estima a pesquisa – e podem não ser justamente porque é muito difícil achá-las. “E para descrevê-las é preciso que elas tenham flor e fruto, o que realmente precisa de muita sorte”, diz.
As descobertas são importantes para esforços de conservação. “Com nossas estimativas de população podemos identificar quais são as espécies mais vulneráveis, onde elas estão e quanto de sua população já foi perdida”, afirma Steege. Esses dados, por exemplo, podem nortear políticas de criação de áreas protegidas.
Para Salomão, outra importância do trabalho se dá no contexto do Código Florestal, lei que estabelece que propriedades privadas que tenham desmatado ilegalmente precisam recuperar essas áreas com mata nativa.
“É provável que as espécies hiperdominantes favoreçam o desenvolvimento das outras, informação que pode ser útil ao recuperar um passivo ambiental”, diz. “Se o proprietário não tiver muita informação sobre o que havia na área anteriormente, pode usar algumas dessas espécies. Com certeza elas vão ter sucesso na restauração.”

sábado, 12 de outubro de 2013

Amazônia em dois tempos

ECNOLOGIA & MEIO AMBIENTE
|  N° Edição:  2291 |  11.Out.13 - 20:55 |  Atualizado em 12.Out.13 - 08:53

Amazônia em dois tempos



Em 1982, o oceanógrafo e documentarista Jacques Cousteau comandou uma expedição pela floresta. Passados 25 anos, seu filho Jean-Michel refez a viagem e se diz otimista com o que viu

Juliana Tiraboschi
Assista ao vídeo com trechos da aventura mais recente de Jean-Michel Cousteau:
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Aos 7 anos de idade, o francês Jean-Michel Cousteau, que hoje tem 75 anos, passou por uma experiência que determinou os rumos de sua vida. “O meu pai me jogou na água com um cilindro nas minhas costas. Assim, ele começou a me fazer entender que mesmo a minha vizinhança estava conectada ao oceano”, diz. O pai de Jean-Michel é o renomado explorador Jacques Cousteau (1910-1997), oficial da marinha francesa e oceanógrafo, célebre por seus documentários e inovações em equipamentos de mergulho. Inspirado pelo pai, Jean-Michel também dedica a vida a estudar e a divulgar a importância dos ambientes aquáticos. Entre 1981 e 1982, passou 20 meses viajando pelo rio Amazonas em uma expedição de pesquisa liderada pelo pai. Vinte e cinco anos depois, entre 2006 e 2007, o arquiteto e explorador voltou à região e passou mais dez meses refazendo a viagem, que passou também por partes do Equador e Peru.
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Herança
O lendário explorador Jacques Cousteau é homenageado 
em viagem do filho Jean-Michel (acima)
“Muitas pessoas que participaram da viagem de 1982 estavam na segunda expedição. Foi incrível observar as reações delas às diferenças encontradas”, disse Cousteau em entrevista à ISTOÉ. Uma delas foi o crescimento populacional: durante esse período, a população da região amazônica brasileira passou de cerca de 12 milhões para 20 milhões de pessoas (leia quadro). Para o pesquisador, foi assustador observar o impacto que esse contingente de moradores causou e vem causando sobre a floresta. De acordo com as observações de Jean-Michel, muitos dos migrantes são pessoas pobres, que vêm de favelas do Rio de Janeiro e de outras cidades e vão para a Amazônia porque encontram oportunidade e espaço para pescar, cultivar alguns alimentos, cortar árvores, construir casas e sobreviver. “Não posso culpá-las por isso, porque às vezes a vida é dura. Mas o que nos preocupa é que a maioria não sabe nada sobre a floresta, não sabe que os níveis dos rios variam conforme a estação e não conhece doenças como a malária”, diz. 

Para combater a desinformação, Jean-Michel pretende desenvolver um projeto educacional e ambiental na região, nos moldes de outros programas de sua fundação, a Ocean Futures Society. Um deles já foi apresentado para estudantes no Guarujá pela organização, que conta com uma sede em São Paulo. “A maioria dos brasileiros não conhece a Amazônia, então tentamos educar as pessoas com informação, o que vai ajudá-las a tomar melhores decisões”, afirma.
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Outro problema que chamou a atenção de Jean-Michel foi o aumento do impacto da indústria petroleira nas águas da região entre a década de 1980 e meados dos anos 2000. “Peixes estão se contaminando com essa água, o que contagia os pássaros que se alimentam deles e as onças que comem as aves.” Há tecnologias para limpar essa água antes de descartá-la nos rios, mas a indústria não está fazendo isso. Por outro lado, o explorador se diz otimista com as políticas de combate ao desmatamento apresentadas pelo governo nos últimos anos.
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Além disso, Jean-Michel preocupa-se com algumas soluções buscadas para aumentar a produção de energia no Brasil, como a construção de hidrelétricas na região amazônica, a exemplo de Belo Monte. “Acho que isso é um grande erro, pois vai inundar milhares de quilômetros de terras e expulsar a população. A devastação vai ser monumental, vai afetar a migração de peixes e as terras indígenas. Há outras abordagens, outras formas de energias renováveis muito melhores”, diz.
Jean-Michel está no Brasil nesta semana, até o dia 16, para divulgar o livro “Retorno à Amazônia”, que está sendo lançado em São Paulo neste sábado e no qual o explorador retrata em 300 páginas as duas expedições. Além disso, uma exposição com as fotos mais marcantes da publicação será exibida em Manaus, de 16 a 19 de dezembro, e em Búzios, de 12 de janeiro a 12 de março de 2014.  
“A floresta deve ser vista como um negócio”
O documentarista Jean-Michel Cousteau diz que o desmatamento deixou de ser um problema crítico da Amazônia. Ele defende que a floresta seja explorada, mas com limitações.
ISTOÉ – O sr. observou degradação maior em 2006 do que em 1982. Como vê a situação agora?
Jean-Michel Cousteau – 
Eu estou mais otimista hoje. O desmatamento era um problema crítico em 2006, mas está sendo atendido com cada vez mais atenção pelo Brasil. Mais gente está preocupada com isso. A Amazônia deve ser vista como um negócio. Você não pode tirar mais do que a floresta oferece. Se corta uma árvore, tem que plantar outra no lugar. Mas não pode ser da espécie que dá mais lucro. É preciso respeitar a diversidade da floresta.
ISTOÉ – Quais foram as principais diferenças entre a expedição de 1982 e a de 2006?
Jean-Michel –
 Na segunda tínhamos um equipamento muito melhor e mais moderno. Em 1982, não tínhamos nenhum meio de comunicação na mata com o mundo exterior. Em 2006, podíamos contatar pessoas da equipe em Manaus. Além disso, na segunda vez, passamos muito mais tempo mergulhando, o que nos deu a chance de conhecer criaturas que nunca havíamos visto.
ISTOÉ – O sr. acompanhou os recentes protestos de povos indígenas? 
Jean-Michel –
 Tento acompanhar. Gostaria que as autoridades prestassem mais atenção a essas pessoas e ao que elas podem nos ensinar. Os índios tiveram sucesso vivendo na floresta por milhares de anos, enquanto ignorávamos sua existência.
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 fotos: Carrier Vonderhaar; REX/TODAY

domingo, 11 de agosto de 2013

Tubarões do Recife

Reportagem Especial: Tubarões do Recife

28.julho.2013 15:11:15


Herton Escobar
FOTO: Herton Escobar/Estadão — Placas a cerca de 150 metros de onde Bruna Gobbi foi atacada, na praia de Boa Viagem.
Herton Escobar / O Estado de S. Paulo
A possibilidade de ser atacado por um tubarão existe em qualquer ponto do litoral brasileiro. Em nenhum lugar, porém, esse risco é mais real do que nas praias da região metropolitana do Recife, a capital pernambucana. Um problema que vinha se mantendo mais ou menos submerso nos últimos anos, mas voltou à tona de forma dramática e contundente na semana passada, com a morte da jovem Bruna Gobbi, de 18 anos, atacada por um tubarão na praia de Boa Viagem, segundos antes de ser salva de um afogamento.
Foi o segundo ataque de tubarão seguido de morte este ano no litoral de Pernambuco, e o segundo em menos de um ano em Boa Viagem, que é a principal praia da capital. Desde 1992, foram registrados 59 ataques no Estado, 85% dos quais ocorreram numa faixa de 30 quilômetros de litoral que banha a região metropolitana de Olinda, Recife e Jaboatão dos Guararapes (70% só nas praias de Boa Viagem e Piedade), segundo dados do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit).
A média de ataques registrados em todo o resto da costa brasileira, comparativamente, é de 4 a 5 por ano, segundo o especialista Otto Gadig, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Recife é um negócio totalmente fora do normal, sem dúvida nenhuma”, diz o pesquisador, que passou vários anos estudando os ataques da região na década de 1990. “Alguma coisa está muito errada lá.”
Gadig acredita, inclusive, que o número de ataques pode ser ainda maior do que o indicado pelas estatísticas oficiais. Segundo ele, é possível que muitos corpos que são resgatados do mar com marcas de mordida e interpretados pelos legistas como casos de afogamento seguido de ataque sejam, na verdade, casos de ataques seguidos de morte. “É uma teoria que não tenho como provar, mas acredito seriamente nisso”, disse Gadig ao Estado.
O pesquisador conta que, nos anos em que passou no Recife, teve oportunidade de analisar as feridas de mais de 30 corpos retirados do mar e registrados como casos de afogamento seguido de mordida. Em cerca de 10 deles, Gadig acredita que as pessoas tenham sido atacadas ainda vivas, por causa de características das feridas que, segundo ele, indicam que as pessoas estavam na posição vertical quando foram atacadas.
O último caso de ataque registrado antes do de Bruna Gobbi se encaixa nesse tipo de cenário. O corpo da vítima, José Rogério Tavares da Silva, de 41 anos, foi encontrado na praia do Paiva, em 28 de maio deste ano, com marcas de mordida no tronco, na perna esquerda e no joelho direito, três dias depois de ele ter sido visto pela última vez na praia Enseada dos Corais, mais ao sul. O laudo do Instituto Médico Legal diz que ele morreu em decorrência das mordidas, não de afogamento. Silva estava vestido e teria entrado no mar sozinho depois de ingerir bebidas alcoólicas — um comportamento de alto risco.
“Não acho que tenham sido só 59 ataques, e não acredito que tenham sido 59 tubarões diferentes”, diz o pesquisador da Unesp. A reclassificação de alguns casos de afogamento como casos de ataque não alteraria o cenário de risco, que já está bem estabelecido, mas ajudaria a quantificar melhor as ocorrências e as condições nas quais elas ocorrem, além de dar pistas sobre a quantidade e os tipos de tubarões presentes na região. “Independentemente de terem sido mordidas antes ou depois da morte, o fato é que essas pessoas foram mordidas por animais de grande porte e próximas da praia”, afirma Gadig. “Isso é importante saber.”
Gadig acredita que o problema não seja o número de tubarões na região do Recife – que não seria muito diferente do de outras capitais do Nordeste –, mas o comportamento dos animais, que ele acredita estar alterado por causa da degradação dos ecossistemas costeiros e outras alterações ambientais na região.
Responsabilidade.
Essa, também, é a avaliação de pesquisadores locais. Para a pesquisadora Rosangela Lessa, presidente do Cemit e professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), não há dúvida de que o número excessivo de ataques resulta de interferências humanas no ambiente – a maioria delas ligadas ao complexo portuário de Suape, ao sul do Recife, construído nas décadas de 1980 e 1990. “Todo desenvolvimento tem um custo”, afirma.
O porto teria causado um série de impactos ambientais na região da Baía de Suape, incluindo mudanças na salinidade da água e destruição de ecossistemas costeiros e marinhos que forneciam alimento e serviam de berçário natural para os tubarões da região. Isso teria forçado os animais a se deslocar para o norte, na direção do estuário do Rio Jaboatão e das praias metropolitanas do Recife. Outro agravante é que, até alguns anos atrás, havia um lixão que despejava chorume e um matadouro clandestino que despejava diariamente milhares de litros de sangue e vísceras no Rio Jaboatão, atraindo os tubarões para perto da costa. Ambos os estabelecimentos foram fechados após denúncias, mas ainda há o problema da poluição biológica por esgoto (Jaboatão dos Guararapes está entre as 100 cidades com pior saneamento básico no País), que degrada os ecossistemas marinhos e reduz a oferta natural de alimento para os tubarões. No caso dos tubarões-tigre, especificamente, sabe-se que eles têm o costume de acompanhar embarcações em alto-mar, o que levanta a hipótese de que eles estejam chegando à costa pernambucana no rastro dos navios que chegam ao Suape, para depois seguir as correntes litorâneas na direção norte — rumo à praias do Recife.
Canalizando tudo isso, há também um fator complicador natural, que é a topografia submersa da região. Contíguo à linha da costa metropolitana, há um canal natural entre os recifes, com profundidade média de 8 metros, que serve de “avenida” para os tubarões e que em alguns pontos chega bem perto das praias, facilitando a aproximação dos animais. Ou seja: não é preciso se afastar muito da areia para estar na zona de risco — principalmente na maré alta.
Somados todos os fatores, o resultado é um cenário onde tubarões de espécies potencialmente agressivas — como o tigre e o cabeça-chata — transitam rotineiramente pelas praias de uma região metropolitana densamente povoada e com condições ecológicas pouco ideais, que favorecem os ataques. “Não há nenhuma causa isolada”, diz o especialista em tubarões Fabio Hazin, da UFRPE. “Os ataques começaram a ocorrer por uma somatória de fatores.”
A melhor solução, segundo Hazin e Rosangela, é que as pessoas obedeçam às orientações de segurança nas praias. “Os tubarões não podem ser educados, mas as pessoas podem”, afirma Rosangela. Todas as praias da região metropolitana são amplamente sinalizadas com placas alertando para a presença de tubarões, além das orientações que são dadas regularmente aos banhistas pelos guarda-vidas do Corpo de Bombeiros. “Temos de educar a população de que é preciso seguir as regras. As informações estão amplamente disponíveis e todo mundo sabe que o risco existe; é uma decisão de cada um correr esse risco ou não.”
O Cemit é contra qualquer solução que implique em matar tubarões. “Não queremos piorar ainda mais um problema ambiental que já é complexo”, diz Rosangela, lembrando que os tubarões têm um papel essencial no ecossistema marinho e que há várias espécies ameaçadas de extinção.
“Fomos nós que causamos o problema; a responsabilidade é nossa, não dos tubarões”, concorda Hazin. “Não acho eticamente nem ambientalmente correto debitar na conta dos tubarões um problema que nós criamos.
Hazin, considerado um dos maiores especialistas em tubarões do País, coordena um projeto de captura e remoção de tubarões que, segundo ele, reduziu em 90% a ocorrência de ataques na região metropolitana do Recife. Os animais são capturados por meio da colocação de linhas com anzóis (espinhéis) ao largo da costa, trazidos para um barco, marcados com etiquetas de identificação e soltos longe das praias, em águas mais profundas. Depois de 7 meses parado por falta de recursos, o trabalho foi retomado na sexta-feira, depois de receber quase R$ 1,8 milhão da Secretaria de Defesa Social (SDS) do Estado. Em oito anos de operação, mais de 80 tubarões de espécies agressivas foram removidos pelo projeto, e os dados indicam que eles não retornam para as praias. O projeto, chamado Protuba, tem também um braço forte de educação ambiental, com apoio financeiro adicional da Petrobras.
O secretário de Comunicação do governo estadual, Evaldo Costa, concorda que a culpa não é dos tubarões, mas diz que também não é do porto. “Esse problema não é novo. Sempre houve ataques de tubarão por aqui, a diferença é que eles não eram documentados”, argumenta. Os pesquisadores discordam. Segundo eles, até 1992 os ataques eram esporádicos, semelhante ao que ocorre em outras regiões do País.
FOTO: Herton Escobar/Estadão — Ponto da praia de Boa Viagem onde Bruna Gobbi foi atacada e resgatada (visto aqui na maré baixa, enquanto que o ataque ocorreu na maré alta, quando os arrecifes ficam submersos).
Propostas.
Nem todos, porém, se sentem totalmente confortados por isso. Há muitos que defendem a instalação de redes ou grades de proteção no entorno das praias, como é feito em algumas áreas de risco da Austrália, África do Sul e Hong Kong. Outros defendem até a proibição legal do banho de mar.
“Acho que a tela de proteção seria um boa, na orla toda”, disse ao Estado um comerciante que trabalha na praia de Boa Viagem há quase 20 anos, e pediu para não ter o nome divulgado. Pergunto a ele se a grade não estragaria a paisagem da praia, já que ela ficaria para fora d’água durante a maré baixa. “Se ficar aparecendo tudo bem, melhor do que morrer alguém mordido por tubarão.” Ele seria a favor, também, de proibir as pessoas de entrar na água nos períodos de maré alta, quando o risco de ataque é maior – porque os tubarões conseguem se aproximar mais da praia e as corrente de refluxo que arrastam as pessoas para o fundo são mais fortes.
“O problema não é ficar feio, é as pessoas poderem entrar na água”, concorda Carlos Cícero do Nascimento, outro comerciante de Boa Viagem. Ele é a favor da grade, mas contra a proibição do banho do mar, mesmo que seja apenas na maré alta. “De jeito nenhum; não teria o menor cabimento. Olha aí, já tem placa para todo lado. O banhista é que tem de prestar atenção.”
As placas de alerta estão espalhadas por toda a orla do Recife e são, de fato, bastante visíveis. Há dois tipos, ambos escritos em inglês e português: uma placa que simplesmente alerta para o risco de ataques de tubarão e outra, que pede para que se evite o banho de mar e dá instruções sobre os períodos e comportamentos de maior risco. Além disso, há os guarda-vidas do Corpo de Bombeiros, que ficam em pontos estratégicos das praias e orientam verbalmente as pessoas que entram na água.
A orientação geral de segurança é ficar nas piscinas naturais que se formam na maré baixa em vários pontos da praia, protegidas pelos arrecifes, ou entrar com a água no máximo até a altura da cintura em áreas mar aberto – não só pelo risco de ser atacado por tubarões, mas de ser arrastado para o fundo pelas correntes de refluxo, que é um risco ainda maior (muito mais pessoas morrem afogadas no Recife do que atacadas por tubarão).
Conforme indicado nas placas, os ataques ocorrem mais frequentemente em áreas de mar aberto (sem arrecifes), em períodos de maré cheia (especialmente nas fases de lua cheia ou nova, quando a maré fica ainda mais alta), ao amanhecer ou cair da tarde (quando o instinto de caça dos tubarões está mais aguçado), e quando a água está turva (porque prejudica a visão do tubarão e aumenta o risco de ele confundir a pessoa com uma presa).
No caso do ataque à Bruna Gobbi, vários fatores de risco estavam presentes: era fase de lua cheia, a maré estava alta e a água estava turva por causa de chuvas nos dias anteriores. Além disso, ela entrou na água num ponto de mar aberto e com forte corrente de refluxo, que a arrastou rapidamente para o fundo. A jovem, que não sabia nadar, começou a se afogar e entrou em desespero – comportamento que atrai a atenção de tubarões. Ela foi mordida na perna esquerda, segundos antes de os bombeiros, que já estavam na água para salvá-la do afogamento, chegarem até ela.
Há vários testemunhos de que Bruna tinha conhecimento dos riscos e entrou na água depois de ter sido orientada pelos bombeiros a não fazê-lo.
Não foi e nem será a única a fazer isso. O Estado conversou com vários guarda-vidas na praia de Boa Viagem – inclusive os que participaram do resgate de Bruna – e todos foram unânimes em dizer que muitas pessoas simplesmente ignoram os alertas. “As pessoas nunca acham que vai acontecer com elas”, disse um dos bombeiros. “A gente fala, orienta, pede para sair, mas as pessoas insistem em entrar na água”, afirmou outro.
O turista gaúcho José Sinovetz, que estava na praia no dia 22 e presenciou todo o incidente com Bruna, disse que no dia seguinte ao ataque ele viu, no mesmo local, um outro turista ser advertido pelos guarda-vidas a sair da água. “Ele desdenhou, disse que sabia nadar e continuou lá, com as ondas batendo nas costas”, conta Sinovetz. Para ele, as pessoas têm de assumir responsabilidade por suas ações, mas o governo do Estado deveria colocar uma grade de proteção no mar assim mesmo. “Pernambuco têm obrigação de colocar essa grade. Se ficar feio, azar.”
FOTO: Herton Escobar/Estadão — Placas de alerta na praia de Piedade, num ponto onde uma pessoa já foi atacada em águas rasas, bem próximo à areia.
Zona de risco.
Para os pesquisadores, o problema da colocação de grades ou redes é muito maior do que o estético. Além de serem caras e de difícil manutenção, elas não garantem 100% de proteção e têm um alto impacto ecológico, porque afetam toda a fauna marinha e não apenas os tubarões. As redes capturam vários outros animais de maior porte, como golfinhos e tartarugas-marinhas (que morrem ao se emaranhar nelas), enquanto que as grades rígidas “esterilizam” o ambiente, bloqueando a circulação dos animais marinhos e ainda impactando os padrões de ondas, correntes e transporte de sedimentos ao longo da costa.
“Além de não resolver o problema atual, estaríamos criando ainda mais problemas”, argumenta Rosangela. “Essa redes foram colocadas em outros lugares numa época em que não havia tanta preocupação com o meio ambiente. Podemos continuar o que estamos fazendo, respaldados pela ciência e pelas regras de conservação, ou podemos dar vários passos para trás, voltar aos anos 1950 e virar trogloditas ambientais.”
Hazin também é contra a colocação de redes ou grades. Para ele, é preciso aprender a conviver com o risco e “substituir a relação de raiva entre homens e tubarões por uma relação de respeito”, porque o risco nunca será totalmente eliminado. “Para acabar totalmente com o problema, só exterminando todos os tubarões do Atlântico Sul”, afirma. “O oceano é a casa deles. Não há solução definitiva.” Para Hazin, o risco de ser atacado por um tubarão no mar é equivalente ao de ser picado por uma cobra na floresta. “São acidentes naturais”, diz ele. “Mas não vejo ninguém pedindo que se extermine as cobras ou proíbam as pessoas de entrar na mata por causa disso. Se for para fechar a praia, que fechem pelo risco de afogamento, não por causa dos tubarões.”
Para Gadig, os ataques de tubarões no Recife já configuram uma situação crônica de conflito entre seres humanos e animais selvagens, semelhante ao que ocorre com leões e leopardos em algumas regiões da África, com ursos polares no Ártico e com tigres e elefantes, na Ásia – situações em que o avanço do homem sobre os hábitats naturais cria uma disputa direta por espaço e por recursos. “Recife virou uma zona de conflito”, diz o pesquisador. “Hoje, a pergunta não é mais porque os tubarões atacam; é porque as pessoas continuam a entrar na água apesar dos riscos.”
“Hoje entrei na água com um pouco de medo, por causa do que aconteceu, mas normalmente, não”, disse ao Estado a jovem Tamara Soares, de 17 anos, que na quinta-feira tomava um banho de sol na praia de Boa Viagem, exatamente em  frente ao ponto onde Bruna Gobbi foi atacada. “Sei que tem risco, mas normalmente não penso muito nisso.”

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Sumiço de borboletas indica queda de biodiversidade na Europa

23/07/2013 - 13h19

Sumiço de borboletas indica queda de biodiversidade na Europa

DA DEUTSCHE WELLE
http://www1.folha.uol.com.br/dw/1315304-sumico-de-borboletas-indica-queda-de-biodiversidade-na-europa.shtml

Relatório indica intensificação da agricultura como um dos principais fatores para a diminuição das borboletas na região. Mudanças climáticas também contribuíram para sumiço de metade da população desses insetos.
Nas últimas duas décadas, a população de borboletas diminuiu 50% nas regiões de pradaria na Europa - principal habitat desses insetos no continente. Essa redução indica uma perda de biodiversidade preocupante na região, segundo o relatório da Agência Europeia do Ambiente, EEA, divulgado nesta terça-feira (23/07).
A pesquisa analisou dados de 1990 a 2011 sobre 17 espécies de borboletas em 19 países europeus. Esse tipo de inseto é um indicador importante para apontar tendências para outros insetos terrestres que, juntos, formam mais de dois terços de todas as espécies do planeta. Por isso, a agência usa as borboletas como base para medir a biodiversidade e a saúde dos ecossistemas na Europa.
"Essa dramática redução de borboletas de pradaria é alarmante - em geral, esses habitats estão diminuindo. Se nós não conseguirmos mantê-los, nós poderemos perder muitas espécies no futuro", ressaltou Hans Bruyninckx, diretor executivo da EEA. Ele chama a atenção para a importância das borboletas e outros insetos na polinização. "O que eles carregam é essencial para os ecossistemas naturais e para a agricultura."
Das espécies analisadas, oito registram declíno, duas permaneceram estáveis e apenas a população de uma cresceu. O relatório não conseguiu observar a tendência das demais seis espécies examinadas.
AGRICULTURA
Os principais fatores para essa queda é intensificação da agricultura em regiões planas e de fácil cultivo, aponta o estudo. A prática deixa a terra estéril e prejudica a biodiversidade. Outros motivos seriam o abandono de terras em áreas montanhosas e úmidas, principalmente nas regiões sul e leste da Europa, devido à baixa produtividade. "Sem qualquer forma de administração nesses locais, a pradaria será gradualmente substituída por mato e floresta", indica o relatório.
Além disso, a intensificação e o abandono também são responsáveis pela fragmentação e o isolamento das regiões remanescentes. Dessa maneira, as chances de sobrevivência das espécies locais e de recolonização em áreas onde elas foram extintas ficam reduzidas.Os pesquisadores apontam o uso de pesticidas como outro vilão - levados pelo vento, eles acabam matando as larvas desses insetos.
"O Indicador Europeu de Borboletas de Pradaria pode ser usado para avaliar o sucesso de políticas agrícolas", afirma a EEA. Segundo o relatório, o financiamento sustentável de indicadores de borboletas pode contribuir para validar e reformar uma série de políticas e ajudar a atingir a meta dos governos europeus de reduzir a perda de biodiversidade até 2020.

CONTADORES DE BORBOLETAS
Estima-se que, das 436 espécies de borboletas presentes na Europa, 382 sejam encontradas em regiões de pradaria em pelo menos um país europeu. Desde de 1950, a vegetação sofre alterações devido ao uso do solo e, em alguns países, ela pode ser encontrada apenas em áreas de reserva natural atualmente.
Milhares de profissionais treinados e voluntários contribuíram para a realização do estudo: eles contaram borboletas em aproximadamente 3500 faixas de pradarias espalhadas pela Europa. Na região, o primeiro trabalho do tipo foi feito pelo Reino Unido, em 1976.

sábado, 20 de julho de 2013

15 novas espécies de aves são descritas na Amazônia

15 novas espécies de aves são descritas na Amazônia


Publicação conjunta de quatro grupos de pesquisadores traz a maior quantidade de espécies inéditas de uma vez só desde 1871

17 de julho de 2013 | 2h 07

Giovana Girardi - O Estado de S.Paulo
Choquinha-do-rio-roosevelt (Epinecrophylla dentei), achada na região do Rio Aripuanã - Fabio Schunck/Divulgação
Fabio Schunck/Divulgação
Choquinha-do-rio-roosevelt (Epinecrophylla dentei), achada na região do Rio Aripuanã
De uma tacada só, 15 novas espécies de aves foram descritas na Amazônia brasileira em uma edição especial doHandbook of the Birds of the World, uma espécie de enciclopédia com todas as aves conhecidas do mundo.

Lançada no fim de junho, a publicação traz as descobertas que quatro grupos de ornitólogos do Brasil e do exterior fizeram nos últimos anos. 

A quantidade surpreende. Desde 1871 não eram descritas tantas espécies de aves brasileiras de uma vez só, em uma única obra. Não é à toa. Apesar de na Amazônia não ser raro de vez em quando descobrir um bicho novo, as aves são o grupo animal mais bem conhecido em todo o mundo. Então não é de se esperar tantas novidades.

Foi justamente para causar esse choque que os pesquisadores resolveram juntar seus esforços e fazer uma publicação conjunta. "A verdade é que, ao publicar uma por uma, a informação passa por baixo do radar. E ninguém percebe o grande quadro que é: estamos em um momento muito especial na Amazônia, uma fase explosiva de descobertas", afirma o ornitólogo Mário Cohn-Haft, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

"Nossa ideia foi passar o recado de que a Amazônia ainda tem muita coisa nova", diz. Segundo ele, mais de uma dezena de novas aves deve ser descrita nos próximos anos.

Os achados. A maior parte dos achados ocorreu na porção entre o sul do Pará, o norte de Mato Grosso e o sudeste do Amazonas, região que inclui o chamado arco do desmatamento, o que coloca os animais em ameaça. Chama a atenção o caso de cinco espécies que foram encontradas em um local nunca antes estudado, no sul do Amazonas, entre os Rios Aripuaná e Roosevelt. O local fica próximo da fronteira com Rondônia, por onde a fronteira agrícola avança. De acordo com o pesquisador Luís Fabio Silveira, do Museu de Zoologia da USP, são endêmicas dali - ou seja, não ocorrem em nenhum outro local. 

"Em todo o mundo, por ano, são descobertas milhares de espécies de insetos, uma centena de peixes, mas aves são menos de uma dezena. Porque a maioria já foi detectada. Mas, se o grupo mais bem conhecido do mundo ainda traz tantas novidades na Amazônia, imagina o resto. É um alerta para usarmos a Amazônia de um modo mais inteligente", diz Silveira.
Confira abaixo algumas das espécies descobertas: