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segunda-feira, 27 de julho de 2020

Fritjof Capra: A pandemia vista de 2050

Autoria: por

 Fritjof Capra e Hazel Henderson / CSR Wire / Tradução Bruno Mattos - 13.07.2020 | Fritjof Capra| #Ciência ,  #Física


Imagem: Drew Beamer / Unsplash

Vamos supor que temos a possibilidade de despertar em 2050 e visualizar o mundo e suas transformações pós-pandemia, já bem definidas. O que temos a dizer sobre o que ocorria no passado, sobre as falhas e condições da humanidade, e quais mudanças seriam percebidas? Esta é a proposta do artigo escrito pelo físico Fritjof Capra e pela futurista Hazel Henderson, juntar indícios que temos com perspectivas imagináveis.

O Fronteiras do Pensamento 2020 debate a Reinvenção do humano, e o físico austríaco Fritjof Capra é um dos conferencistas que contemplarão o tema e as novas realidades da pandemia no mundo. Autor de best-sellers sobre as mudanças conceituais na ciência relacionadas às mudanças de visão de mundo e valores da sociedade, Capra é reconhecido mundialmente pela obra O Tao da Física. É, também, aclamado por seu trabalho na promoção da educação ecológica. 

>> O físico teórico austríaco Fritjof Capra é um dos grandes pensadores que debate a Reinvenção do humano no Fronteiras do Pensamento 2020. Garanta o seu acesso à plataforma digital.



Confira o artigo:

Imagine que estamos em 2050, olhando em retrospecto para a origem e a evolução da pandemia de coronavírus nas últimas três décadas. Extrapolando a partir de eventos recentes, oferecemos o seguinte cenário para essa visão desde o futuro.

Conforme adentramos a segunda metade do século XXI, finalmente somos capazes de interpretar os sentidos da origem e do impacto do coronavírus que atingiu o mundo em 2020 a partir de uma perspectiva evolucionária sistêmica. Hoje, em 2050, olhando em retrospecto para os últimos 30 anos de turbulência em nosso planeta natal, parece óbvio que a Terra assumiu a tarefa de ensinar uma lição à nossa família humana. O planeta nos mostrou a importância primordial de compreendermos nossa situação a partir de sistemas inteiros, identificados por alguns pensadores visionários já em meados do século XIX. Essa maior consciência humana revelou como o planeta funciona de fato, com sua biosfera viva extraindo poder sistemicamente do fluxo diário de fótons de nossa estrela mãe, o sol.

No fim das contas, essa consciência expandida ajudou a separar as limitações cognitivas e os pressupostos e ideologias equivocados por trás das crises do século XX. Falsas teorias sobre o progresso e o desenvolvimento humano, medido de forma míope a partir de preços e métricas baseadas apenas no dinheiro, como o PIB, culminaram em perdas sociais e ambientais cada vez maiores: poluição do ar, da água e da terra, destruição da diversidade biológica e perda de funções do ecossistema, todos exacerbados pelo aquecimento global, pela elevação do nível dos oceanos e por gigantescas alterações climáticas.

Essas políticas míopes também geraram colapso social, desigualdade, pobreza, doenças mentais e físicas, vícios, a perda de confiança nas instituições (incluindo a mídia, a academia e a própria ciência) e também uma redução da solidariedade comunitária. Elas também provocaram as pandemias do século XXI: SARS, MERS, AIDS, influenza e os muitos coronavírus surgidos em 2020. 

Durante as últimas décadas do século XX, a humanidade havia excedido a capacidade regenerativa da Terra. A família humana crescera até atingir os 7,6 bilhões de indivíduos em 2020 e dava continuidade à mesma obsessão por crescimento econômico, corporativo e tecnológico que havia dado início à crescente crise existencial que ameaçava a mera sobrevivência da humanidade. Ao alimentar esse crescimento excessivo com combustíveis fósseis, a humanidade aquecera a atmosfera a tal ponto que o consórcio de ciências climáticas da Organização das Nações UNIDAS (ONU), o IPCC, observou em sua atualização de 2020 que a humanidade dispunha de apenas mais dez anos para reverter essa situação de crise.

Já em 2000, todos os meios estavam disponíveis: possuíamos o conhecimento necessário e já havíamos desenvolvido tecnologias renováveis eficientes e sistemas econômicos cíclicos baseados nos princípios ecológicos da natureza. Em 2000, as sociedades patriarcais estavam perdendo o controle sobre as populações femininas em razão das forças da urbanização e da educação. As próprias mulheres haviam começado a assumir controle sobre seus corpos, e as taxas de fertilidade começaram a despencar antes mesmo da virada para o século XXI. Revoltas disseminadas contra o modelo econômico da globalização, imposto de cima para baixo, e suas elites masculinas dominantes levaram ao colapso da rota insustentável do desenvolvimento baseado em combustíveis fósseis, poderio nuclear, militarismo, lucro, ganância e lideranças egocêntricas.

Os orçamentos militares, que haviam suprimido os recursos de saúde e educação necessários para o desenvolvimento humano, foram redirecionados gradualmente de tanques e navios de batalha para guerras mais baratas e menos violentas calcadas na informação. No início do século XXI, a disputa internacional pelo poder estava mais voltada para a propaganda social, as tecnologias de persuasão, a infiltração e o controle global da Internet.

Em 2020, a pandemia do coronavírus disputava a prioridades nos estabelecimentos médicos com as vítimas das salas de emergência, fossem elas vítimas de ferimento por armas de fogo ou pacientes com outras condições que ameaçavam sua sobrevivência. Em 2019, um movimento de estudantes escolares em todo os Estados Unidos havia se aliado a profissionais da área médica para protestar contra a violência armamentista, vista por eles como uma crise de saúde pública. Não demorou para que surgissem leis mais estritas de controle de armas, acompanhadas pelo boicote dos fundos de pensão aos fabricantes de armamentos e o decorrente enfraquecimento dos lobbys armamentistas. Em muitos países, as armas foram recompradas dos proprietários pelo governo e destruídas, como já havia ocorrido na Austrália no século XX. Isso levou a uma grande queda das vendas globais de armamentos, fenômeno acompanhado por leis internacionais que exigiam licenças anuais e seguros de alto custo dos proprietários, enquanto a taxação global reduziu as dispendiosas corridas armamentistas vistas nos séculos anteriores. Hoje, os conflitos entre nações são em grande parte regidos por tratados internacionais e pela transparência. Em 2050, os conflitos raramente envolvem recursos militares – eles migraram para a propaganda de Internet, a espionagem e as guerras cibernéticas.

Em 2020, essas revoltas trouxeram à tona todos os problemas subjacentes às sociedades humanas: o racismo e a ignorância, passando por teorias conspiratórias, xenofobia e do “outro” enquanto bode expiatório, até chegar às diversas pré-disposições cognitivas, como o determinismo tecnológico, a cegueira de base teórica e um fatal e corriqueiro erro de compreensão que confundia dinheiro com riqueza. O dinheiro, como todos sabemos hoje, foi uma invenção útil: as moedas são simplesmente protocolos sociais (marcadores físicos ou virtuais de confiança) que operam em plataformas sociais com efeito em rede, cujos preços flutuam conforme o nível de uso e confiança de seus muitos usuários. Ainda assim, países e elites ao redor do mundo se deslumbraram com o dinheiro e as apostas no “cassino financeiro global”, estimulando ainda mais os sete pecados capitais em detrimento de valores tradicionais como cooperação, compartilhamento, ajuda mútua e a ética da reciprocidade.

Cientistas e ativistas ambientais haviam alertado para as terríveis consequências dessas sociedades não sustentáveis e esses sistemas de valor retrógrados durante décadas, mas até a pandemia de 2020 os líderes políticos e corporativos, bem como outras elites, haviam resistido com teimosia a esses alertas. Antes incapazes de romper com o estado ébrio derivado do poder político e do lucro financeiro, seus próprios cidadãos os forçaram a redirecionar o foco para o bem estar e a sobrevivência da humanidade e da comunidade da vida. As indústrias fósseis lutaram para manter subsídios e isenções tributárias em todos os países conforme o preço do petróleo e da gasolina despencavam, mas já não tinham a mesma capacidade para comprar favores políticos e apoio aos seus privilégios. Foi necessária a reação global de milhões de jovens, “ambientalistas raiz” e povos indígenas que entendiam os processos sistêmicos de nosso planeta Gaia – uma biosfera regulada e organizada de forma autônoma que, durante bilhões de anos, havia gerenciado toda a evolução planetária sem a interferência de seres humanos cognitivamente limitados.

Nos primeiros anos de nosso século XX, Gaia respondeu de forma inesperada, como já fizera tantas vezes durante a longa história da evolução. Os humanos derrubaram amplas áreas de florestas tropicais e se intrometeram de forma massiva em outros ecossistemas ao redor do mundo, fragmentando esses ecossistemas autorregulatórios e fraturando a rede da vida. Uma das muitas consequências dessas ações destrutivas foi que alguns vírus que até então viviam em simbiose com determinadas espécies animais “saltaram” dessas espécies para outras e, então, para o corpo dos humanos, onde eram muito tóxicos ou até mesmo mortais. Pessoas de muitos países e regiões, marginalizadas pela limitada globalização econômica voltada para o lucro, mitigavam sua fome comendo animais silvestres dessas regiões recém-expostas, matando macacos, gatos-do-mato, gambás, roedores e morcegos para utilizá-los como fontes adicionais de proteína. Essas espécies selvagens, portadoras de diversos vírus, também eram vendidas vivas em “mercados frescos”, expondo ainda mais as populações urbanas aos novos vírus.

Nos anos 1960, por exemplo, um vírus obscuro saltou de uma espécie rara de macacos utilizado na alimentação de humanos na África Ocidental. De lá ele se espalhou para os Estados Unidos, onde foi identificado como o vírus HIV e causou a epidemia de AIDS. Ao longo de quatro décadas, ela causou a morte de um número estimado em 39 milhões de pessoas ao redor do mundo, cerca de 0,5 por cento da população mundial. Quatro décadas mais tarde, o impacto do coronavírus foi rápido e dramático. Em 2020, o vírus pulou de uma espécie de morcegos para os humanos na China, de onde se espalhou rapidamente pelo mundo, deixando um número estimado em 50 milhões de mortos em uma única década e dizimando assim a população mundial.

Do privilegiado ponto de vista de 2050, podemos olhar em retrospecto para essa sequência de vírus: SARS, MERS e o impacto global das diversas mutações do coronavírus iniciadas em 2020. Essas pandemias acabaram sendo estabilizadas, em parte através da proibição estrita de “mercados vivos” em toda a China em 2020. Essa proibição foi replicada por outros países e mercados globais, dando fim ao comércio de animais silvestres e reduzindo vetores. Ao mesmo tempo, os sistemas públicos de saúde, cuidados preventivos e o desenvolvimento de vacinas e medicamentos eficazes foram aprimorados.

As lições básicas para os seres humanos nesses trágicos 50 anos de crises globais auto infligidas – os martírios das pandemias, cidades inundadas, florestas queimadas, secas e outros desastres climáticos cada vez mais violentos – eram simples, muitas delas baseadas nas descobertas de Charles Darwin e de outros biólogos dos séculos XIX e XX:

  • - Nós humanos somos uma espécie com muito pouca variedade de DNA.
  • - Evoluímos ao lado de outras espécies da biosfera do planeta através da seleção natural, respondendo a mudanças e perturbações em nossos vários ambientes e habitats.
  • - Somos uma espécie global, que migrou do continente africano para todos os outros, competindo com outras espécies e levando várias delas à extinção.
  • - Nossa colonização planetária e nosso sucesso na Era do Antropoceno do século XXI deveu-se em grande parte à nossa capacidade de nos aproximarmos, cooperarmos, compartilharmos e evoluirmos em populações e organizações cada vez maiores.
  • - A humanidade cresceu a partir de grupos errantes de nômades e passou a viver em vilarejos agrícolas estáticos, depois em cidadezinhas, depois nas grandes metrópoles do século XX, onde vivia mais de 50% de nossa população. Até a crise climática e as pandemias dos primeiros anos do século XXI, todas as previsões apontavam para o crescimento dessas metrópoles e uma população humana de 10 bilhões nos dias hoje, em 2050.


Agora sabemos por que as populações humanas atingiram seu ápice de 7,6 bilhões em 2030, conforme previsto no cenário mais otimista do IPCC, bem como nas pesquisas urbanas globais realizadas por cientistas sociais que documentavam o declínio da fertilidade em Empty Planet (2019). Os “ambientalistas raiz” atualizados com novos conhecimentos, as multidões de estudantes escolares, os ecologistas ao redor do mundo e as mulheres empoderadas se uniram a investidores e empreendedores mais éticos e preocupados com a natureza para tornar os mercados mais locais. Milhões de consumidores passaram a ser atendidos por cooperativas de pequenas redes movidas a energia renovável. Somavam-se a elas os empreendimentos corporativos do mundo todo que, mesmo em 2012, empregavam mais pessoas do que todas as empresas de fins lucrativos somadas. Essas empresas já não utilizavam falsas métricas orientadas pelo dinheiro ou pelo PIB: a partir de 2015, passaram a orientar suas atividades segundo diretrizes da ONU, o conjunto de 17 metas de sustentabilidade e regeneração de todos os ecossistemas e da saúde humana.

Essas novas métricas e metas sociais focavam sempre na cooperação, no compartilhamento e em maneiras mais sábias de desenvolvimento humano, empregando recursos renováveis e maximizando a eficiência. A sustentabilidade de longo prazo, se distribuída de forma igualitária, beneficia todos os membros da família humana a partir de uma lógica de tolerância com as outras espécies de nossa biosfera. A concorrência e a criatividade florescem com boas ideias, tornando obsoletas aquelas de menor utilidade, e andam de mãos dadas com padrões éticos baseados na ciência, qualificando a informação em sociedades mais autossuficientes e conectadas em todos os níveis, do local ao global.

Quando o coronavírus surgiu em 2020, de início as primeiras respostas humanas foram caóticas e insuficientes, mas logo se tornaram mais coesas e mudaram drasticamente. O comércio global encolheu, limitando-se ao transporte de bens raros e migrando para o intercâmbio de informações. Ao invés de enviar bolos, balas e biscoitos de um ponto a outro do planeta, passamos a enviar suas receitas, bem como outras receitas para criar comidas e bebidas de base vegetal. A nível local, implementamos tecnologias ecológicas: fontes de energia solar, eólica e geotérmica, iluminação de LED, veículos, barcos e até mesmo aeronaves elétricos.

As reservas de combustível fóssil permaneceram em segurança debaixo do solo, pois o carbono passou a ser visto como um recurso precioso demais para ser queimado. O excesso de CO2 na atmosfera proveniente da queima de combustíveis fósseis foi capturado por bactérias orgânicas do solo, plantas de raízes profundas, bilhões de árvores recém plantadas e em um reequilíbrio geral dos sistemas alimentares humanos, até então amparados no agronegócio, nas indústrias bioquímicas, na publicidade e no comércio global de alguns poucos vegetais provenientes da monocultura. Essa hiperdependência de combustíveis fósseis, pesticidas, fertilizantes e antibióticos em dietas cuja base era a carne de animais criados em cativeiro dependia das reservas minguantes de água potável e se mostraram insustentáveis. Hoje, em 2050, nossa comida é produzida localmente, incluindo muitos vegetais nativos e selvagens, agricultura em água salgada e outras plantas alimentícias afeitas ao sal (halófitas), cujas proteínas inteiras são mais saudáveis para as dietas humanas. 

O turismo em massa – e as viagens em geral – passaram por uma retração radical, bem como o tráfego aéreo e o uso obsoleto de combustíveis fósseis. As comunidades ao redor do mundo se estabilizaram em centros populacionais de tamanho pequeno ou médio, que se tornaram bastante autossuficientes graças à produção local e regional de comida e energia. O uso de combustíveis fósseis praticamente desapareceu, pois mesmo em 2020 ele já não era capaz de competir com o desenvolvimento acelerado de fontes renováveis de energia e as correspondentes novas tecnologias, nem à reutilização de recursos, antes desperdiçados, por uma economia circular que temos hoje.

Devido ao risco de infecções em grandes aglomerações, os sweat shops, as grandes redes de lojas e os eventos esportivos ou de entretenimento em grandes arenas desapareceram gradualmente. Os políticos democráticos se tornaram mais racionais, pois os demagogos já não podiam reunir milhares de pessoas para ouvi-los em seus grandes comícios. Suas promessas vazias também foram refreadas pelas redes sociais após a quebra desses monopólios voltados para o lucro em 2025; hoje, em 2050, eles são regulados como utilidades públicas, servindo ao bem público em todos os países.

O cassino global dos mercados financeiros entrou em colapso, e as atividades econômicas se deslocaram do setor financeiro para as cooperativas de crédito e os bancos públicos, dando origem aos setores colaborativos que conhecemos hoje. A manufatura de bens e nossas economias baseadas em serviços resgataram as permutas, o voluntariado informal e as moedas locais, bem como diversas transações não monetárias surgidas no ápice da pandemia. Como consequência da grande descentralização e do crescimento de comunidades autossustentáveis, a economia de 2050 é menos extrativa e mais regenerativa, e os abismos de renda e a desigualdade dos modelos de exploração obcecados pelo lucro desapareceram em sua maioria.

Ao levar os mercados globais à bancarrota, a pandemia de 2020 enfim derrubou a ideologia do dinheiro e do fundamentalismos de mercado. As ferramentas dos bancos centrais já não funcionavam, então o “helicopter money’ e os pagamentos diretos em espécie para famílias necessitadas, dos quais o Brasil foi pioneiro, tornaram-se os únicos meios para manter o poder de compra e suavizar a transição econômica ordenada para sociedades sustentáveis. Isso levou os políticos europeus e estadunidenses a criar dinheiro novo. Essas políticas de estímulo substituíram a “austeridade” e foram logo investidas em todos os recursos renováveis de infraestrutura em seus respectivos planos de Green New Deal.

Quando o coronavírus se espalhou para animais domésticos, gado e outros ruminantes, ovelhas e cabras, alguns desses animais se tornaram portadores da doença sem demonstrarem qualquer sintoma. Consequentemente, a matança e o consumo dessas espécies despencou no mundo todo. As pastagens e a criação industrial de animais correspondia a quase 15% das emissões globais de gases causadores do efeito estufa a cada ano. As grandes corporações multinacionais produtoras de carne foram apontadas por hábeis investidores como novo conjunto de “ativos ociosos”, na esteira das companhias de combustíveis fósseis. Algumas redirecionaram toda a sua estrutura para alimentos de base vegetal com diversos análogos de carne, peixe e queijo. Bifes se tornaram muito caros e raros, e as vacas passaram a ser propriedade das famílias, como a antiga tradição, em pequenas fazendas para produção de leite, queijo e carne, e também de ovos das galinhas.

Depois que vacinas caras e subsidiadas contra a pandemia foram desenvolvidas, as viagens globais passaram a ser permitidas somente com os atuais certificados de vacinação, usados, sobretudo, por comerciantes e pessoas ricas. Agora a maior parte da população mundial prefere os prazeres da comunidade, dos encontros e da comunicação virtual, bem como viagens locais com transporte público, carros elétricos e os veleiros movidos pelo vento e por luz solar que tanto amamos. Por consequência, a população do ar caiu drasticamente em todas as principais cidades do mundo.

Com o crescimento de comunidades autossustentáveis, despontaram em muitas cidades as assim chamadas “vilas urbanas” – bairros remodelados que combinam estruturas de alta densidade a amplas áreas verdes comuns. Essas áreas fomentam economias significativas de energia e um ambiente mais saudável, seguro e voltado para as necessidades da comunidade, com níveis muito reduzidos de poluição.

As cidades ecológicas de hoje incluem alimentos produzidos em edifícios com terraços solares, jardins vegetais e transporte público elétrico, pois os automóveis foram em grande parte banidos das ruas urbanas em 2030. As ruas foram reclamadas por pedestres, ciclistas e pessoas em pequenas motocicletas que perambulam por estabelecimentos comerciais de pequeno porte, galerias de profissionais autônomos e mercados onde é possível comprar direto do produtor. Os veículos elétricos solares para viagens intermunicipais costumam descarregar as baterias à noite para fornecer eletricidade para as casas de uso unifamiliar. Carregadores de uso livre para veículos solares estão disponíveis em todas as regiões, reduzindo o uso de eletricidade de base fóssil das obsoletas usinas centralizadas, muitas das quais faliram antes de 2030.

Após todas as mudanças profundas que nos trouxeram aqui, percebemos que agora nossas vidas são menos estressantes, mais saudáveis e mais satisfatórias. Hoje, nossas comunidades orientam seus planos para o futuro de longo prazo. Para garantir a sustentabilidade de nossos novos modos de vida, percebemos que era crucial recuperar os ecossistemas do mundo todo para que vírus perigosos para a vida humana permanecessem confinados em outras espécies, contra as quais são inofensivos. Para recuperar os ecossistemas a nível mundial, nossa migração global para uma agricultura orgânica e regenerativa prosperou, assim como os alimentos e bebidas de base vegetal, as comidas criadas em água salgada e os pratos com algas de que tanto gostamos. Os bilhões de árvores plantadas ao redor do mundo após 2020, assim como as melhorias da agricultura, levaram à recuperação gradual os ecossistemas.

Como consequência de todas essas mudanças, o clima global finalmente se estabilizou, e hoje as concentrações atmosféricas de CO2 estão de volta às 350 partes por milhão, um índice seguro. A elevação dos oceanos permanecerá assim por um século, e agora muitas cidades prosperam em locais mais seguros e elevados. Hoje as catástrofes climáticas são raras, embora muitos eventos climáticos continuem a perturbar nossas vidas, como já faziam em séculos anteriores. As muitas crises e pandemias globais, causadas por nossa antiga ignorância em relação aos processos planetários e ciclos viciosos teve consequências trágicas e de grande amplitude para os indivíduos e comunidades. Ainda assim, nós, humanos, aprendemos muitas lições dolorosas. Hoje, em 2050, ao olharmos em retrospecto, percebemos que a Terra é nossa maior professora, e suas terríveis lições podem ter salvado da extinção não só a humanidade, mas também muitas das comunidades vivas que compartilham o planeta conosco.

(Via CSRWire)

Fritjof Capra, Ph.D., físico e teórico de sistemas, é autor de diversos best-sellers internacionais, incluindo O Tao da Física (1975) e A Teia da Vida (1996). É coautor, ao lado de, Pier Luigi Luisi, do texto multidisciplinar A Visão Sistêmicas da Vida. Capra oferece um curso on-line baseado nesse livro.

Hazel Henderson, D.Sc.Hon., membro da Royal Society of Arts, futurista, analista de sistemas e de políticas científicas, é autora de “The Politics of the Solar Age” (1981, 1986) e outros livros que incluem “Mapping the Global Transition to the Solar Age” (2014). Henderson é CEO da Ethical Markets Media Certified B. Corporation, dos Estados Unidos, editor da Green Transition Scoreboard ® e também do livro e série de TV “Transforming Finance”, a serem lançados em breve. 


sábado, 7 de junho de 2014

Defensoria Pública pedindo a suspensão do processo administrativo de criação do Parque Estadual do Taquari


Sexta-Feira 06/06/14

Criação de parque estadual no Vale do Ribeira é adiada



Área da Fazenda Nova Trieste formaria mosaico com outros parques da região, na maior mancha de mata atlântica do País

Mapa da Fazenda Nova Trieste, no município de Eldorado.

O governo do Estado de São Paulo planejava anunciar ontem, no Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de maio), a criação de uma nova unidade de conservação da Mata Atlântica, chamada Parque Estadual do Taquari, de 245 km². Localizado no Vale do Ribeira, ele formaria um mosaico com os atuais parques estaduais do Petar, Intervales, Nascentes do Paranapanema e Carlos Botelho. Mas o anúncio teve de ser adiado – e talvez abortado – por causa da oposição de ambientalistas e de uma ação civil pública ajuizada pela Defensoria Pública do Estado em Registro, pedindo a suspensão do processo administrativo de criação do parque.
Uma consulta pública que seria realizada no dia 28 de maio em Eldorado (município que abrigaria o parque) foi suspensa no último minuto por força de uma liminar, concedida pela Justiça local, com base na ação civil pública de Registro.
A suspensão foi comemorada por muitos na comunidade ambientalista que se opõem à criação do parque, pelo fato da área em questão já ser protegida há mais de 40 anos por uma empresa privada, a Agro Industrial Eldorado, que mantém vigilância permanente no local. Na opinião dos críticos, a empresa faz um trabalho de conservação melhor do que o Estado seria capaz de fazer, visto as dificuldades que enfrenta para cuidar dos parques estaduais já existentes – muitos dos quais operam sem condições adequadas de infraestrutura, orçamento e pessoal.
A área, conhecida como Fazenda Nova Trieste, abriga uma grande área de mata atlântica em ótimo estado de preservação e praticamente isenta de ocupação humana, compondo um enorme “corredor ecológico” de florestas que se estende do PE Carlos Botelho até o PE Turístico do Alto do Ribeira (Petar), passando pelos PEs Intervales e Nascentes do Paranapanema (que compõem o chamado Mosaico de Unidades de Conservação de Paranapiacaba).
É a “maior mancha de mata atlântica do País”, segundo Clayton Lino, presidente do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (RBMA), que coordenou os estudos para criação da unidade, em parceria com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SMA). “Você pode traçar um raio de 12 quilômetros ao redor sem nenhum morador, só mata”, diz.
O relatório consolidado da Proposta de Criação do Parque Estadual do Taquari pode ser lido aqui: http://migre.me/jDbhd
A própria minuta do decreto de criação do parque (http://migre.me/jDbLq) reconhece a área da fazenda como “um dos mais conservados remanescentes da Mata Atlântica no Brasil”. Graças à proteção oferecida pela empresa, ela abriga a maior população conhecida de onças-pintadas do bioma, segundo o instituto Pró-Carnívoros, assim como uma grande quantidade de palmeiras juçara, uma espécie ameaçada de extinção por causa da atividade ilegal de palmiteiros – um problema crônico em praticamente todas as unidades de conservação da Mata Atlântica no Estado.
Apesar do nome “fazenda”, não há nenhuma atividade agropecuária sendo desenvolvida na propriedade. Por vários anos foi realizada a produção sustentável de palmito, mas a atividade está parada no momento.
Os procedimentos para criação do parque Taquari foram publicados pela SMA em 14 de maio (Resolução SMA 43/2014), dando 15 dias para que “qualquer interessado” se manifestasse sobre o assunto. No dia 26, organizações ambientalistas (incluindo o Pró-Carnívoros e o Instituto Socioambiental) e representantes das comunidades tradicionais da região divulgaram um manifesto público de repúdio à criação do parque, argumentando que o prazo de 15 dias era “inaceitável” e que o Estado não teria condições de garantir a conservação da área.
“Há mais de 40 anos o proprietário da Nova Trieste – a S/A Agroindustrial Eldorado – mantém, de forma permanente e contínua, a fiscalização da propriedade (a partir de bases estratégicas de apoio à vigilância). Além disso, promovem pesquisas cientificas e realizam projetos inovadores de manejo sustentável da Mata Atlântica incluindo a palmeira juçara (Euterpe edulis) e outras espécies nativas. Esse tripé que envolve proteção, pesquisa e práticas sustentáveis foi essencial para garantir a efetividade proteção da área, realidade bem distante dos parques estaduais vizinhos”, destaca o manifesto.
A Defensoria Pública do Estado em Registro cita como exemplo em sua ação o caso do Parque Estadual Nascentes do Paranapanema, que foi criado em 2012 e tem como “equipe”, até hoje, um único gestor.
No dia 24 de maio – oito dias antes da audiência pública – o proprietário da fazenda, Gilberto Sulzbacher, lavrou um escritura em cartório criando a Reserva Eldorado e se comprometendo a cumprir as leis ambientais e garantir, permanentemente, a conservação ambiental da propriedade. Sulzbacher não foi encontrado pela reportagem ontem para falar sobre o assunto.
VISTA DO PARQUE ESTADUAL INTERVALES. CRÉDITO: HELVIO ROMERO/ESTADÃO
Compromisso. Lino, da RBMA, lamentou a suspensão da consulta pública e disse que há um compromisso real da SMA de garantir a conservação da área, se possível em parceria com o proprietário. “A situação lá não está tão bonita assim. A fazenda também está sob pressão de palmiteiros e caçadores”, ressaltou, em entrevista ao Estado. Segundo ele, R$ 5 milhões já estão reservados para “investimento imediato” na proteção da nova unidade e das suas unidades vizinhas. “Ainda tem muito mais palmito lá do que nos outros parques; e o trabalho realizado pela empresa nos últimos 40 anos é reconhecido por todos. A discussão é como garantir a continuidade dessa proteção pelos próximos 40 anos.”
A expectativa é retomar as conversas sobre o projeto com uma nova agenda. Em um email escrito por ele detalhando a situação, Lino afirma que várias reuniões já foram realizadas com o prefeito e vereadores de Eldorado (“com a participação de vários segmentos”), assim como com lideranças locais e membros de ONGs, para discutir a melhor maneira de garantir a proteção e o uso sustentável da área.
A ação da Defensoria interrompeu liminarmente o processo de consulta pública, mas não impede o Estado de “retomar as discussões a respeito da criação do Parque Estadual, desde que respeitado, desde o início, o modelo procedimental aplicável e os marcos do devido processo socioambiental”.
Pela proposta da SMA, a área total da Fazenda Nova Trieste, de 30 mil hectares (300 km²), seria transformada num “minimosaico” de áreas protegidas — incluindo uma unidade de proteção integral, que seria o Parque Estadual do Taquari ou, possivelmente, um Refúgio de Vida Selvagem-RVS, de 245 km². Essa parcela, equivalente a 80% da propriedade, teria de ser desapropriada pela Estado.
“As providências de regularização fundiária deverão ser tomadas preferencialmente de forma amigável e com recursos financeiros provenientes de compensação ambiental”, diz a minuta do decreto de criação do parque. Se o Estado quiser, porém, tem autoridade para desapropriar a fazenda contra a vontade do proprietário.
Outra alternativa seria o proprietário transformar a fazenda numa Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), que é uma unidade de conservação “oficial”, prevista na lei do SNUC. (A “Reserva Eldorado” declarada em cartório não tem força de lei.)
Ainda pela proposta da SMA (veja mapa abaixo), cerca de 15% da propriedade permaneceria como área privada. O restante seria separado como uma área quilombola, que se sobrepõe ao perímetro atual da fazenda. Discute-se também a possibilidade de criar uma Floresta Estadual de 200 km², para uso público, na parte leste da propriedade.
Mosaico proposto pelo Estado para a conservação da área da Fazenda Nova Trieste.
Unidades de conservação do Vale do Ribeira e Litoral Sul: O novo parque do Taquari se encaixaria neste “buraco quadrado” anexo ao PE Intervales. (Falta o Parque Nascentes do Paranapanema) Crédito: Google Maps
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segunda-feira, 12 de maio de 2014

Modelo de turismo sustentável em parques é isso?

Parques nacionais do Piauí poderão ser privatizados

Acordo de cooperação para a realização de PPP foi assinado em 2011

11/05/2014 12:36 - Atualizado em 11/05/2014 14:27
 
Os parques nacionais de Sete Cidades e Serra das Confusões, no Piauí estão inclusos em um projeto de privatização que inclui também a cidade de Jericoacoara, no Ceará. O Governo Federal anunciou recentemente que as unidades de conservação seriam administradas por empresas que mantivessem uma parceria público-privada (PPP).

Parque Nacional de Sete Cidades
Embora tenha sido apresentado a pouco tempo, o acordo de cooperação para a realização de PPP nos parques federais foi assinado em 2011 pelos Ministérios do Planejamento e Meio Ambiente e atende à determinação da presidente Dilma Rousseff de priorizar a gestão desses espaços em seu governo.
Segundo divulgado no site do Extra, a ganhadora da seleção ficaria responsável não só pelo controle de acesso, mas pela arrecadação de entradas e pelo apoio à visitação. Ela também teria o direito de construir restaurantes e pousadas, o que desagrada aos moradores.
Até o momento, três reuniões foram feitas para discutir o assunto. Nelas estavam representantes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), técnicos do Ministério do Planejamento e da empresa Idom, contratada pelo governo federal para elaborar estudos sobre a área. O texto do projeto e o estudo da Idom seguem, no entanto, desconhecidos do público em geral.
Segundo o Ministério do Planejamento, o instituto tem orçamento anual de R$ 200 milhões e gere mais de trezentas Unidades de Conservação país afora. A pasta considera o valor insuficiente para gestão adequada dessas áreas e defende a implementação da PPP.
Fonte: Extra
Edição: PortalODia.com

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Supervulcão de Yellowstone é 2,5 vezes maior que se calculava

Supervulcão de Yellowstone é 2,5 vezes maior que se calculava

SITE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA. Supervulcão de Yellowstone é 2,5 vezes maior que se calculava. 12/12/2013. Online. Disponível em www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=supervulcao-yellowstone-2-5-vezes-maior-se-calculava. Capturado em 15/12/2013. 

Com informações da BBC - 12/12/2013
Supervulcão de Yellowstone é 2,5 vezes maior que se calculava
Caso o supervulcão de Yellowstone entrasse em erupção, as consequências poderiam ser catastróficas.[Imagem: BBC]
Versão 2013
Um supervulcão que está embaixo do Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, é ainda maior do que os cientistas haviam calculado anteriormente.
A pesquisa mostra que a câmera de magma é 2,5 vezes maior do que o apontado por um estudo anterior. A "caverna" do vulcão teria 90 quilômetros de largura e algo entre 2 e 15 quilômetros de altura, com algo entre 200 a 600 quilômetros cúbicos de rocha fundida.
"Nós estamos trabalhando lá há muito tempo, e sempre pensamos que ele poderia ser maior. Mas esta descoberta é estarrecedora", diz Bob Smith, pesquisador da Universidade de Utah.
Talvez não tão estarrecedora, já que a cada medição eles encontram valores maiores. A última atualização fora feita em 2011:
"Nós registramos terremotos no Yellowstone e arredores e medimos as ondas sísmicas na medida em que passam pelo solo. As ondas viajam mais lentamente pelo material quente e fundido. Assim conseguimos medir o que está abaixo do solo," disse Jamie Farrell, coautor do estudo.
Sem previsão
Caso o supervulcão de Yellowstone entrasse em erupção, as consequências poderiam ser catastróficas.
Na última vez que isso aconteceu - há 640 mil anos -, ele espalhou cinzas por todo o continente da América do Norte e afetou o clima de todo o planeta.
Infelizmente a ciência ainda não tem meios para prever quando o supervulcão voltará a entrar em erupção.
Alguns acreditam que o supervulcão de Yellowstone entre em erupção a cada 700 mil anos, enquanto outros acreditam que é preciso coletar mais dados para sustentar essa teoria.
Isso porque, até agora, há informações sobre apenas três erupções passadas do supervulcão, ocorridas há 2,1 milhões, 1,3 milhão e 640 mil anos, o que dá apenas dois intervalos de 700 mil anos entre erupções, uma amostra estatisticamente fraca para estabelecer um padrão.


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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Áreas de proteção de SP estão abandonadas

Mesmo com R$ 144 milhões em caixa, áreas de proteção de SP estão abandonadas

Segundo ambientalistas, faltam condições mínimas de infraestrutura para o funcionamento das unidades de conservação do Estado; problema contrasta com recursos da Secretaria do Meio Ambiente disponíveis para esses locais, que estão parados

24 de agosto de 2013 | 21h 35


Herton Escobar, Giovana Girardi e Bruno Deiro - O Estado de S. Paulo
Quem chega ao Parque Estadual da Ilha do Cardoso, no extremo sul do litoral paulista, esperando se encantar com a natureza pode se chocar com o grau de degradação que vem atingindo o local nos últimos anos. No núcleo Perequê, principal ponto turístico do parque, a aparência é de uma cidade fantasma.
Veja também:

Parte de alojamento na Ilha do Cardoso desmoronou após vendaval - TIAGO QUEIROZ/AE
TIAGO QUEIROZ/AE
Parte de alojamento na Ilha do Cardoso desmoronou após vendaval
Alojamentos com o telhado caído, placas solares enferrujadas, passarelas parcialmente interditadas por risco de desmoronamento e um museu vazio são o que resta de uma obra de R$ 8 milhões que nunca foi sequer aceita pelo poder público, tamanha a quantidade de problemas. Há pilhas de entulho jogadas ao lado de uma trilha turística, e as duas embarcações do parque que poderiam fazer a remoção do lixo estão quebradas – uma delas, afundada pela metade em Cananeia, onde fica a sede da unidade.
Os problemas, observados pelo Estado, são talvez o mais grave exemplo de uma situação de penúria denunciada amplamente por pesquisadores e ambientalistas, de dentro e de fora do governo estadual, que acomete um grande número das unidades de conservação (UCs) paulistas, que carecem de condições mínimas de infraestrutura e recursos humanos para funcionar adequadamente.
Isso, apesar de a Secretaria do Meio Ambiente (SMA) do Estado de São Paulo ter pelo menos R$ 144 milhões disponíveis em caixa para investimento nas UCs, oriundos do pagamento de compensações ambientais por empreendimentos, segundo dados obtidos pela reportagem por meio da Lei de Acesso à Informação. Somado a isso, o orçamento atual da Secretaria do Meio Ambiente (SMA), de R$ 882 milhões, é o segundo maior dos últimos cinco anos, depois de ter sofrido uma queda significativa em 2011.
Pouco dessa saúde financeira recuperada, porém, tem sido repassada para os parques e reservas ecológicas do Estado, que agonizam com uma série de problemas crônicos e agudos.
O parque da Ilha do Cardoso, inserido numa das regiões mais bem preservadas de Mata Atlântica do País, na divisa de São Paulo como o Paraná, costumava ser um dos parques mais visitados do Estado. Escolas precisavam agendar visitas com semanas de antecedência para conseguir uma vaga. Agora, são poucos os estudantes – e até mesmo pesquisadores – que se aventuram por lá.
A antiga pousada, onde os alunos ficavam hospedados, teve parte de uma das marquises destruída por um vendaval em outubro. Uma vistoria técnica depois constatou que a laje apresentava sinais de corrosão. Outras oito casas que serviriam para hospedar visitantes também estão fechadas.
“Não é um hotel cinco estrelas, mas dá para receber bem as pessoas, sim. Estive lá no início do ano”, disse o secretário Bruno Covas, em entrevista ao Estado na semana passada. Informado pela reportagem de que as estruturas estavam abandonadas e com problemas estruturais, porém, demonstrou surpresa e cobrou explicações do diretor da Fundação Florestal, Olavo Reino Francisco, sentado ao seu lado.
Francisco disse que “a fundação ainda não recebeu a obra” e que a empresa responsável, a Lacon Engenharia, contratada em 2009, já foi autuada por irregularidades. “Tem uma série de problemas ali”, disse.
“A empresa contratada já foi notificada, realizou vistoria, concordou com as obras necessárias e deu prazo para a secretaria de até 60 dias para sanar todas as questões técnicas levantadas”, informou a secretaria, por escrito, após a entrevista. “Cabe assinalar que a secretaria não efetuou o pagamento do caução, e que apenas o fará mediante a entrega final da obra. Após a conclusão, o parque será imediatamente aberto para a população.”
Apesar desses problemas na Ilha do Cardoso, a mesma empresa foi contratada pela SMA em 2012, via edital, para construir uma pousada no Parque Estadual Intervales, por R$ 3,5 milhões. E, novamente, houve problemas. Segundo o diretor da FF, o projeto está “num limbo”. “Os mesmos problemas que ocorreram lá (na Ilha do Cardoso) ocorreram cá (em Intervales)”, disse Francisco. “Também a secretaria não recebe nem paga. Você contrata a empresa, entende que ela é séria, dá o projeto, e ela não executa, mas no fim quer entregar e cobrar. É uma pena.”
Mais tarde, por escrito, a secretaria informou que “a Fundação Florestal está fazendo a última vistoria para o recebimento da obra que deverá ser entregue para a população nos próximos dois meses, quando também o parque será aberto”.
CABOS DE AÇO. Na Ilha do Cardoso, próximo aos alojamentos, um mirante de madeira com vista privilegiada do Rio Perequê, que deveria ser uma das principais atrações após a reforma, precisou ser interditado por falta de segurança, assim como parte da passarela suspensa sobre o manguezal. Ambas as estruturas tiveram de receber o reforço de cabos de aço, improvisado por funcionários, para evitar que um novo vendaval causasse mais estragos.
A infraestrutura é tão precária que até pesquisadores, acostumados a trabalhar no mato, estão evitando o parque. As casas nas quais eles ficavam hospedados foram “reformadas” para atender turistas, e a única opção oferecida pelo Estado agora é uma casa antiga de dois quartos, com problemas de eletricidade, que tem de ser disputada por pesquisadores da USP, Unicamp, Unesp e outras universidades. A solução, para muitos, é pagar para dormir em casas de pescadores.
“Pensamos até em buscar outros locais de pesquisa, mas a ilha é muito importante para a gente que estuda bromélias, pois há uma grande quantidade de espécies por lá. Tentamos reclamar formalmente, mas disseram que não tem o que fazer”, diz o pesquisador Gustavo Romero, do Instituto de Biologia da Unicamp.
A falta de fiscalização também causa insegurança. “Quando comecei a pesquisar no parque, dez anos atrás, podia ir pela encosta sozinha. Nos últimos tempos, é cada vez maior a presença de palmiteiros”, diz a pesquisadora Claudia Bottcher, também da Unicamp. “Costumava ir mensalmente, mas com estas dificuldades agora estou indo apenas uma ou duas vezes por semestre.”
“A ilha parece abandonada. Ninguém quer mais ir para lá”, diz a bióloga Luana Hortenci, da Unesp Rio Claro, que teve um equipamento fotográfico de pesquisa furtado no interior do parque em 2011. O mesmo ocorreu com uma colega dela, este ano. “Os vestígios da ação de caçadores e palmiteiros estão por toda parte”, diz.
Cenários semelhantes de abandono estão presentes em outras unidades de conservação, segundo fontes ouvidas pelo Estado – a maioria das quais só aceitou falar em condição de anonimato, por medo de represálias.
Dados oficiais levantados pela reportagem mostram que os investimentos da Secretaria do Meio Ambiente e da Fundação Florestal caíram nos últimos anos, apesar da recuperação do orçamento (veja gráfico). Segundo Bruno Covas, os investimentos diminuíram por causa do término de convênios com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Entre eles, o Projeto de Desenvolvimento do Ecoturismo na Região da Mata Atlântica, de US$ 9 milhões, que pagou pelas obras na Ilha do Cardoso e Intervales.
Apesar dos problemas apontados, o número total de visitantes recebidos no seis parques beneficiados pelo projeto (Carlos Botelho, Ilha do Cardoso, Intervales, Caverna do Diabo e Turístico do Alto Ribeira e Ilhabela) aumentou nos últimos seis anos, passando de 142 mil em 2007 para quase 199 mil, em 2012, segundo dados da Fundação Florestal.
O outro grande convênio da SMA com o BID, do projeto de Recuperação Socioambiental da Serra do Mar e Sistema de Mosaicos da Mata Atlântica, de US$ 162,4 milhões, termina em 2015.